Quando falamos, apostamos: o outro, o Outro e o preço das suposições
- Arthur Alexander
- 11 de jan.
- 5 min de leitura
Muita gente acredita que os conflitos nas relações seriam resolvidos com uma técnica melhor de comunicação: falar com mais calma, usar “eu-mensagem”, organizar os pedidos, ser mais objetivo. Tudo isso pode ajudar. Mas há um ponto que resiste a qualquer método, porque não é um defeito moral nem uma falha de educação: é estrutural. O laço humano se sustenta em suposições necessárias — sobre quem é o outro, sobre como o sentido funciona, sobre o que a palavra produz. E nenhuma dessas suposições vem com garantia.
Na vida cotidiana, a gente supõe o tempo todo. Quando alguém diz “chego já”, supomos o que isso quer dizer. Quando alguém fica em silêncio, supomos se é desdém, tristeza, distração. Quando alguém elogia, supomos a intenção. Sem suposições, não há convivência. O problema começa quando a suposição vira certeza, e a certeza vira tribunal.
O outro (minúsculo): o semelhante que eu imagino compreender
O outro minúsculo é o semelhante diante de mim: parceiro, amigo, chefe, paciente, analista. Só que esse outro nunca aparece “puro”; ele aparece atravessado pelo meu olhar, pelas minhas experiências, pela minha história de amor e de falta. Em geral, nós montamos uma figura relativamente coerente: “ele é assim”, “ela sempre faz isso”, “ele quer aquilo”, “ela não se importa”. Essa montagem dá estabilidade, como uma fotografia que acalma o tremor do real.
Mas o outro minúsculo também é uma suposição porque o sujeito humano é dividido: ele não coincide consigo, não sabe completamente o que quer, muda de posição, contradiz o que disse ontem, sofre efeitos da linguagem. Quando eu digo “eu sei exatamente o que ele quis dizer”, muitas vezes eu estou dizendo: “eu precisei fechar esse sentido para não suportar a incerteza”.
Um exemplo simples: no casal, alguém diz “tanto faz”. O outro escuta “você não liga”. Quem falou talvez quisesse dizer “estou cansado, decide você”. O significante não vem etiquetado. E o que cada um escuta não é só o que foi dito, mas o que se encaixa na sua própria história.
Outro exemplo: o ciúme. Um olhar num ambiente social pode virar prova de desejo, plano, traição. A suposição cola uma intenção ao outro: “ele olhou porque quis”. Às vezes há desejo, às vezes não; e mesmo quando há, ele pode ser confuso, envergonhado, contraditório. O sofrimento nasce quando a suposição vira sentença e passa a organizar tudo.
O Outro (maiúsculo): o lugar onde eu espero que o sentido esteja garantido
O Outro maiúsculo não é uma pessoa. É o lugar da linguagem e das regras: aquilo que faz o mundo parecer legível. É a crença de que existe um “modo certo” de falar que, se for encontrado, produzirá compreensão e reconhecimento. Ele aparece em frases como: “se eu explicar direito, vão entender”, “se eu escolher as palavras certas, vai ficar claro”, “se eu fizer tudo corretamente, a resposta vem”.
Quando se diz que “o Outro não existe”, não significa que não exista linguagem, lei, cultura. Significa que não existe um garante último do sentido. Não há um juiz final que assegure: “foi exatamente isso que você quis dizer, sem resto”. O sentido não fecha. A palavra escorrega. E, por isso, mesmo o discurso mais bem-intencionado pode retornar como acusação, abandono, cobrança ou ironia.
Na clínica e fora dela, vemos um efeito típico dessa suposição no Outro: a compulsão de explicar. A pessoa acredita que o sofrimento relacional se resolverá se ela encontrar a explicação perfeita, a argumentação impecável, a prova definitiva. Como se, em algum ponto, o sentido pudesse ser selado. Quando isso não acontece, ela se sente injustiçada, invisível, impotente — e, muitas vezes, redobra a tentativa com mais controle e mais cansaço.
O endereçamento: por que a mensagem volta “de outro lugar”
Quando falamos, endereçamos. Mesmo numa postagem, num áudio, numa conversa casual, há um “para quem” implícito. Mas o endereçamento é atravessado pela linguagem e pelos equívocos. Por isso, o endereço costuma “dar errado” — não como acidente, mas como condição.
Você pode dizer ao parceiro: “eu só queria que você me ouvisse”. E a resposta que volta pode ser: “você está me acusando de ser uma pessoa ruim”. Você pode pedir ao chefe: “você pode revisar meu texto?” e, sem perceber, estar pedindo: “me autoriza”. Você pode elogiar alguém: “você é livre”, e a pessoa escutar: “você é irresponsável”. O retorno não obedece ao seu plano consciente.
É aí que a frase “a carta sempre chega ao seu destino” ganha uma leitura útil: o destino não é necessariamente a pessoa certa nem o sentido pretendido; é o ponto onde a mensagem pega. Pega no fantasma do outro, pega na sua ferida antiga, pega no seu próprio ideal, pega no seu supereu. O efeito aparece como mal-entendido, tensão repetida, cena que se repete com personagens diferentes.
O papel da suposição na análise: transferência e sujeito suposto saber
Na análise, uma suposição se torna explícita: o sujeito supõe que o analista sabe algo sobre o seu sofrimento. Essa suposição — o “sujeito suposto saber” — é o motor da transferência. Sem ela, o trabalho não se move. O ponto não é desmenti-la com cinismo, mas fazer com que ela possa ser interrogada.
Porque, quando o analista vira “o garantidor do sentido”, a análise pode se transformar numa busca de certificação: “diga quem eu sou”, “diga se eu tenho razão”, “diga o que o outro quis”. E aí a suposição no Outro se reencena: o desejo de uma garantia final. O trabalho analítico, ao invés, conduz a outra posição: suportar que não há garantia e, ainda assim, falar. É uma ética: fazer existir algo do desejo sem exigir que o Outro assine embaixo.
O que a análise faz: não elimina suposições — revela a fabricação e o custo
Não dá para viver sem supor. A análise não promete uma vida “sem suposições”. O que ela pode oferecer é a experiência de localizar:
Onde você supõe (quais cenas, quais relações, quais palavras-disparo).
Como você supõe (qual narrativa se monta: abandono, humilhação, traição, rejeição, desqualificação).
Para quê você supõe (o que essa certeza protege: evitar o risco do encontro, evitar a perda, evitar a própria ambivalência).
Quanto custa manter essa suposição como certeza.
Esse “preço” aparece em formas muito concretas: ansiedade antecipatória antes de conversas, ruminação interminável depois de mensagens, ressentimento crônico, necessidade de confirmação, medo de errar, exaustão por controlar o sentido, repetição de brigas com a mesma estrutura. Às vezes o preço é mais íntimo: o sujeito fica dependente de um olhar que autorize sua existência; ou se condena a uma solidão defensiva porque “ninguém entende mesmo”.
Uma vinheta comum: alguém diz “eu sempre escolho pessoas indisponíveis”. No início, isso pode soar como azar. Mas, ao localizar as suposições, o sujeito percebe que a indisponibilidade do outro mantém uma cena: se o outro não vem, eu não arrisco; se o outro não responde, eu posso permanecer na posição de esperar; se o outro falha, eu preservo um ideal intacto. A suposição tem função.
O que muda quando isso aparece
O efeito mais importante não é “acertar o endereço” de uma vez por todas. É ganhar uma margem de manobra. Quando o sujeito percebe sua fabricação, ele pode trocar a certeza pela pergunta, a sentença pela curiosidade, a demanda rígida por um pedido mais responsável.
Isso não torna as relações fáceis. Torna-as mais reais. Há menos captura no imaginário, menos tentativa de arrancar garantias do outro, menos necessidade de fechar o sentido à força. E, paradoxalmente, pode haver mais encontro: porque o encontro exige risco, e risco exige suportar que a garantia não vem.
Em última instância, a análise não dá um manual do “como falar certo”. Ela oferece uma experiência: falar e escutar de um modo em que o sujeito possa reconhecer o que se repete, o que insiste e o que se paga. E, a partir daí, escolher melhor: não no sentido moral, mas no sentido de construir um laço menos governado por automatismos e mais sustentado por um desejo que não precisa da assinatura do Outro para existir.