
A Luz e o Saber: O Olhar como Objeto a na Teoria Lacaniana
Escrito por: Arthur A. Abrahão
Introdução
A relação entre luz, saber e olhar é um tema central tanto na filosofia quanto na psicanálise. Desde Platão, a luz tem sido associada à revelação da verdade e à possibilidade do conhecimento. Na teoria lacaniana, no entanto, o olhar não é apenas um instrumento de percepção do mundo, mas um elemento estruturante do desejo e da subjetividade. Este artigo explora como Lacan concebe o olhar como objeto a, um elemento que causa o desejo e, ao mesmo tempo, escapa à sua captura.
O Olhar na Tradição Filosófica
Historicamente, a luz foi vista como um meio pelo qual o conhecimento se torna possível. Em "Alegoria da Caverna", Platão descreve a luz do sol como a verdade suprema, algo que permite aos prisioneiros da caverna ver a realidade tal como ela é. Para Descartes, a visão também é central na busca pelo saber, mas filtrada pela razão. Kant, por sua vez, coloca limites ao conhecimento, destacando que o sujeito nunca pode acessar a "coisa em si" diretamente.
Lacan, ao trabalhar com o conceito de olhar, desloca essa tradição: não se trata apenas do sujeito que vê, mas do sujeito que é visto e constituído pelo olhar do Outro.
O Olhar em Lacan: Entre o Saber e o Desejo
Para Lacan, a visão é mais do que um simples ato fisiológico: ela está entrelaçada com a estrutura do desejo. Ele diferencia a visão (o ato de ver, pertencente ao registro imaginário) e o olhar (um elemento do real que escapa à captura simbólica). O olhar, nesse sentido, não é aquilo que pertence ao sujeito, mas aquilo que o sujeito sente que o atravessa.
O olhar se insere na categoria do objeto a, conceito que Lacan elabora para nomear aquilo que causa o desejo. O objeto a não é um objeto comum, mas um elemento que sempre falta ao sujeito, gerando a busca incessante pelo preenchimento do desejo. No caso do olhar, ele representa a impossibilidade de o sujeito dominar completamente o campo visual e o saber sobre si mesmo.
O Olhar e o Saber: O Que Se Vê e O Que Se Oculta
A relação entre olhar e saber é paradoxal. A luz, ao mesmo tempo que ilumina, pode cegar. Do mesmo modo, o saber pode ser um meio de revelação, mas também de engano. O sujeito, ao buscar compreender o mundo e a si mesmo, se depara com um ponto cego, um real que escapa ao entendimento.
No efeito fotoelétrico, a luz não ilumina passivamente, mas age, transformando a matéria. Quando um fóton atinge a superfície de um metal, ele não apenas revela sua estrutura, mas altera sua composição ao arrancar elétrons. Esse fenômeno mostra que a luz não é apenas um meio de percepção, mas uma força que intervém na realidade.
Do mesmo modo, o olhar do Outro não é apenas uma fonte de conhecimento, mas um ato que modifica o sujeito. Ser olhado pelo Outro não significa apenas ser reconhecido, mas ser afetado, deslocado, introduzido em um campo de desejo. O olhar, assim, funciona como um fóton que incide sobre o sujeito, alterando sua estrutura psíquica e reposicionando-o no campo do desejo.
Assim como o fóton arranca um elétron, o olhar do Outro extrai do sujeito um pedaço, colocando-o em uma nova posição desejante. O sujeito, ao ser olhado, perde algo de si – uma parte simbólica, um fragmento de sua identidade imaginária – e essa perda instaura uma falta, um vazio que sustenta seu desejo. O desejo, então, não nasce da posse, mas daquilo que foi extraído pelo olhar do Outro.
Podemos ilustrar essa dinâmica com exemplos cotidianos. Pense em uma criança que, ao realizar uma travessura, se vê subitamente sob o olhar severo de um adulto. Antes desse olhar, ela estava imersa na ação, sem uma plena consciência de si mesma. Mas o olhar do Outro a desloca: agora, ela se vê como alguém que fez algo errado, alguém que pode ser julgado. Esse olhar extrai dela uma parte simbólica – sua inocência prévia – e introduz um vazio que a leva a se perguntar: "O que sou para esse Outro?". Esse questionamento gera desejo, pois a criança agora busca restaurar sua imagem ou entender sua nova posição no mundo.
Outro exemplo pode ser visto na dinâmica das redes sociais. Uma pessoa pode postar uma foto espontaneamente, mas, ao receber uma enxurrada de olhares (curtidas, comentários, reações), ela se percebe de maneira diferente. Ela já não é apenas quem postou a foto, mas alguém cuja imagem foi capturada pelo Outro. Algo lhe foi extraído – a posse plena de sua própria imagem – e agora seu desejo se move em direção a essa falta, buscando mais reconhecimento, mais olhares, mais validação.
Lacan ilustra essa ideia com a história do "ponto de luz" na tela de um quadro: não importa de que posição o observador olhe, sempre haverá algo que excede sua compreensão. Esse excesso é precisamente o olhar como objeto a, um ponto de perturbação que revela que o sujeito é olhado pelo próprio campo visual.
O Olhar e o Desejo na Cultura Contemporânea
Na cultura contemporânea, a relação entre olhar, luz e saber se intensifica com a onipresença das telas e das imagens. A sociedade do espetáculo descrita por Debord e a onipresença da vigilância eletrônica podem ser interpretadas como formas de intensificação do olhar do Outro. A promessa de transparência total e visibilidade infinita esbarra na mesma aporia lacaniana: o que se expõe não é necessariamente o que se sabe, e quanto mais se ilumina, mais algo escapa.
Na psicanálise, esse fenômeno aparece na angústia do sujeito diante da exposição: ser visto pelo Outro pode gerar um gozo insuportável. Isso se manifesta, por exemplo, em fenômenos como o "medo da câmera", o desconforto com a própria imagem, ou a compulsão pelo registro e compartilhamento de experiências.
O Desejo na Paixão: Um Exemplo Literário
A paixão, mais do que um sentimento, é uma captura pelo olhar do Outro. Tomemos um exemplo ficcional, onde a linguagem nos ajuda a mergulhar no instante em que um olhar transforma um destino.
Ele a viu na praça central, ao meio-dia.
Era um dia seco, de luz cortante, que fazia os contornos das coisas tremularem na aridez do ar. Ele caminhava sem pressa, absorto em pensamentos vagos, até que o peso de um olhar pousou sobre ele. Não qualquer olhar – um olhar que o nomeava antes mesmo de ser reconhecido.
Ela estava ali, vestindo uma saia azul desbotada, os pés descalços sobre o mármore quente. Seus olhos, fixos nele, não apenas o viam; eles o extraíam de si. Algo nele se despregou – a certeza sobre quem era, a estabilidade de seu dia. Aquele olhar o desnudava, fazia dele outro. Como o fóton que arranca um elétron, aquele olhar arrancava dele a antiga posição que ocupava no mundo e o lançava no abismo da paixão.
Desde então, ele já não caminhava – ele errava. Buscava reencontrá-la, mas a cidade era um labirinto de Borges, onde cada esquina levava a um novo enigma. O desejo não era possuí-la, mas continuar sendo olhado por ela, continuar existindo na luz daquele olhar que o criara e o perdera no mesmo instante.
Esse encontro jamais se repetiria da mesma forma, mas a falta instaurada o acompanharia para sempre. O desejo nasceu ali, não da posse, mas daquilo que lhe foi tirado. O que ele perdeu não foi apenas a mulher, mas a parte de si que fora arrancada quando aquele olhar incidiu sobre ele.
Conclusão
A luz e o saber estão intrinsecamente ligados, mas não da maneira tradicionalmente pensada. Em vez de iluminar e revelar plenamente, o saber sempre encontra um limite, um ponto cego que escapa. Esse ponto cego é precisamente o olhar como objeto a: o que perturba, o que faz desejar e o que, no final das contas, nos mostra que nunca seremos donos completos do que vemos, nem do que somos.