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  • Foto do escritor: Arthur Alexander
    Arthur Alexander
  • 8 de fev.
  • 3 min de leitura

O ideal do eu (Ich-Ideal) pode ser entendido como a instância que orienta o eu por meio de um ponto de referência: como eu deveria ser para merecer amor, reconhecimento, pertencimento. Ele dá forma a afetos como vergonha, culpa e orgulho, e muitas vezes define a direção de vida do sujeito — o que ele persegue, o que ele evita, o que ele precisa provar.

Na clínica, é comum que esse tema apareça misturado com outra noção próxima: o eu ideal (Ideal-Ich). A diferença é sutil, mas esclarece muito. O eu ideal é a imagem idealizada de si: uma figura de completude, coerência e competência que seduz porque parece prometer paz (“se eu virar isso, finalmente…”). Já o ideal do eu funciona como a posição a partir da qual o sujeito se mede: um lugar de avaliação ligado ao olhar suposto do Outro (família, pares, instituições, cultura). O primeiro é mais imagético e comparativo; o segundo, mais normativo e estruturante.

A formação do ideal passa pelo mecanismo de identificação. Identificar-se não é apenas copiar alguém; é tomar traços do outro como coordenadas do próprio ser. Antes de a pessoa se pensar como um “eu”, ela já é olhada, nomeada e localizada por um discurso: adjetivos, expectativas e lugares (“o responsável”, “a forte”, “o brilhante”, “o que dá trabalho”). Em seguida, entram as identificações ligadas à imagem e à comparação — irmãos, colegas, figuras admiradas, modelos culturais — que alimentam o eixo do “ser como” ou “não ser como”. E, ao mesmo tempo, certos significantes ganham estatuto de comando: palavras que condensam valor e dignidade (“correto”, “produtivo”, “exemplar”, “digno”). No vocabulário lacaniano, essas palavras podem operar como S1, funcionando como selos que organizam a narrativa de si.

Nessa mesma direção, a noção de estádio do espelho em Lacan ajuda a compreender por que o ideal é tão potente. O eu se constitui a partir de uma forma totalizante que oferece unidade onde havia dispersão: uma imagem que promete consistência. Esse ganho tem seu preço: o eu passa a depender de uma ficção de coerência sustentada por formas valorizadas. Quando a vida contraria a forma — erro, perda, rejeição, limite, envelhecimento — podem emergir vergonha, agressividade, retraimento ou sintoma. O ideal, então, não é um detalhe: é uma engrenagem que amarra a experiência do sujeito à manutenção de uma forma “correta” de existir.

O Outro é decisivo aqui. O ideal se fortalece quando o sujeito supõe um Outro que avalia: alguém (ou um lugar simbólico) diante do qual é preciso não decepcionar. O Outro aparece tanto em demandas explícitas (“seja impecável”) quanto no reconhecimento (“agora sim”) e nas interdições (“isso é vergonhoso”). Em muitos casos, o ideal funciona como uma tentativa de converter o desejo em conformidade: em vez de “o que eu quero?”, a pergunta vira “o que eu preciso ser para não perder amor, lugar, pertencimento?”.

Vale separar o ideal do eu do supereu. O ideal do eu pode atuar como referência e até sustentar projetos. O supereu, por sua vez, costuma aparecer como imperativo: “você tem que…”, “ainda não é suficiente…”. Ele tem um aspecto paradoxal: quanto mais se obedece, mais ele cobra. Quando o ideal do eu fica capturado por essa lógica superegoica, surgem circuitos como perfeccionismo, culpa por descanso, procrastinação por medo de falhar, comparação compulsiva, sensação crônica de insuficiência.

Por que isso dói tanto? Porque o ideal frequentemente promete um fechamento: “se eu for X, não faltará nada”. Mas, do ponto de vista estrutural, a falta não é um acidente a ser eliminado; ela é condição do desejo. Quando o ideal tenta tamponar a falta, ele cria uma ilusão de completude e, ao mesmo tempo, uma ameaça permanente: qualquer falha reabre o buraco. Daí aquela experiência comum de “nunca chega”: conquistas reais podem acontecer e, ainda assim, não produzir apaziguamento.

A psicanálise não tem como objetivo abolir o eu, mas trabalhar um movimento de desidealização: reduzir a tirania do ideal, historicizar de onde ele veio, distinguir reconhecimento real de fantasia de julgamento, e ler o que o ideal protege (de que angústias) e o que ele permite evitar. Com o tempo, a vida pode se deslocar do eixo “provar valor” para o eixo “sustentar escolhas”. O horizonte não é viver sem ideal, e sim transformar o ideal do eu de tribunal em uma bússola menos totalizante — uma referência que não exige completude para autorizar a vida.

 
 
 

Muita gente acredita que os conflitos nas relações seriam resolvidos com uma técnica melhor de comunicação: falar com mais calma, usar “eu-mensagem”, organizar os pedidos, ser mais objetivo. Tudo isso pode ajudar. Mas há um ponto que resiste a qualquer método, porque não é um defeito moral nem uma falha de educação: é estrutural. O laço humano se sustenta em suposições necessárias — sobre quem é o outro, sobre como o sentido funciona, sobre o que a palavra produz. E nenhuma dessas suposições vem com garantia.

Na vida cotidiana, a gente supõe o tempo todo. Quando alguém diz “chego já”, supomos o que isso quer dizer. Quando alguém fica em silêncio, supomos se é desdém, tristeza, distração. Quando alguém elogia, supomos a intenção. Sem suposições, não há convivência. O problema começa quando a suposição vira certeza, e a certeza vira tribunal.

O outro (minúsculo): o semelhante que eu imagino compreender

O outro minúsculo é o semelhante diante de mim: parceiro, amigo, chefe, paciente, analista. Só que esse outro nunca aparece “puro”; ele aparece atravessado pelo meu olhar, pelas minhas experiências, pela minha história de amor e de falta. Em geral, nós montamos uma figura relativamente coerente: “ele é assim”, “ela sempre faz isso”, “ele quer aquilo”, “ela não se importa”. Essa montagem dá estabilidade, como uma fotografia que acalma o tremor do real.

Mas o outro minúsculo também é uma suposição porque o sujeito humano é dividido: ele não coincide consigo, não sabe completamente o que quer, muda de posição, contradiz o que disse ontem, sofre efeitos da linguagem. Quando eu digo “eu sei exatamente o que ele quis dizer”, muitas vezes eu estou dizendo: “eu precisei fechar esse sentido para não suportar a incerteza”.

Um exemplo simples: no casal, alguém diz “tanto faz”. O outro escuta “você não liga”. Quem falou talvez quisesse dizer “estou cansado, decide você”. O significante não vem etiquetado. E o que cada um escuta não é só o que foi dito, mas o que se encaixa na sua própria história.

Outro exemplo: o ciúme. Um olhar num ambiente social pode virar prova de desejo, plano, traição. A suposição cola uma intenção ao outro: “ele olhou porque quis”. Às vezes há desejo, às vezes não; e mesmo quando há, ele pode ser confuso, envergonhado, contraditório. O sofrimento nasce quando a suposição vira sentença e passa a organizar tudo.

O Outro (maiúsculo): o lugar onde eu espero que o sentido esteja garantido

O Outro maiúsculo não é uma pessoa. É o lugar da linguagem e das regras: aquilo que faz o mundo parecer legível. É a crença de que existe um “modo certo” de falar que, se for encontrado, produzirá compreensão e reconhecimento. Ele aparece em frases como: “se eu explicar direito, vão entender”, “se eu escolher as palavras certas, vai ficar claro”, “se eu fizer tudo corretamente, a resposta vem”.

Quando se diz que “o Outro não existe”, não significa que não exista linguagem, lei, cultura. Significa que não existe um garante último do sentido. Não há um juiz final que assegure: “foi exatamente isso que você quis dizer, sem resto”. O sentido não fecha. A palavra escorrega. E, por isso, mesmo o discurso mais bem-intencionado pode retornar como acusação, abandono, cobrança ou ironia.

Na clínica e fora dela, vemos um efeito típico dessa suposição no Outro: a compulsão de explicar. A pessoa acredita que o sofrimento relacional se resolverá se ela encontrar a explicação perfeita, a argumentação impecável, a prova definitiva. Como se, em algum ponto, o sentido pudesse ser selado. Quando isso não acontece, ela se sente injustiçada, invisível, impotente — e, muitas vezes, redobra a tentativa com mais controle e mais cansaço.

O endereçamento: por que a mensagem volta “de outro lugar”

Quando falamos, endereçamos. Mesmo numa postagem, num áudio, numa conversa casual, há um “para quem” implícito. Mas o endereçamento é atravessado pela linguagem e pelos equívocos. Por isso, o endereço costuma “dar errado” — não como acidente, mas como condição.

Você pode dizer ao parceiro: “eu só queria que você me ouvisse”. E a resposta que volta pode ser: “você está me acusando de ser uma pessoa ruim”. Você pode pedir ao chefe: “você pode revisar meu texto?” e, sem perceber, estar pedindo: “me autoriza”. Você pode elogiar alguém: “você é livre”, e a pessoa escutar: “você é irresponsável”. O retorno não obedece ao seu plano consciente.

É aí que a frase “a carta sempre chega ao seu destino” ganha uma leitura útil: o destino não é necessariamente a pessoa certa nem o sentido pretendido; é o ponto onde a mensagem pega. Pega no fantasma do outro, pega na sua ferida antiga, pega no seu próprio ideal, pega no seu supereu. O efeito aparece como mal-entendido, tensão repetida, cena que se repete com personagens diferentes.

O papel da suposição na análise: transferência e sujeito suposto saber

Na análise, uma suposição se torna explícita: o sujeito supõe que o analista sabe algo sobre o seu sofrimento. Essa suposição — o “sujeito suposto saber” — é o motor da transferência. Sem ela, o trabalho não se move. O ponto não é desmenti-la com cinismo, mas fazer com que ela possa ser interrogada.

Porque, quando o analista vira “o garantidor do sentido”, a análise pode se transformar numa busca de certificação: “diga quem eu sou”, “diga se eu tenho razão”, “diga o que o outro quis”. E aí a suposição no Outro se reencena: o desejo de uma garantia final. O trabalho analítico, ao invés, conduz a outra posição: suportar que não há garantia e, ainda assim, falar. É uma ética: fazer existir algo do desejo sem exigir que o Outro assine embaixo.

O que a análise faz: não elimina suposições — revela a fabricação e o custo

Não dá para viver sem supor. A análise não promete uma vida “sem suposições”. O que ela pode oferecer é a experiência de localizar:

  1. Onde você supõe (quais cenas, quais relações, quais palavras-disparo).

  2. Como você supõe (qual narrativa se monta: abandono, humilhação, traição, rejeição, desqualificação).

  3. Para quê você supõe (o que essa certeza protege: evitar o risco do encontro, evitar a perda, evitar a própria ambivalência).

  4. Quanto custa manter essa suposição como certeza.

Esse “preço” aparece em formas muito concretas: ansiedade antecipatória antes de conversas, ruminação interminável depois de mensagens, ressentimento crônico, necessidade de confirmação, medo de errar, exaustão por controlar o sentido, repetição de brigas com a mesma estrutura. Às vezes o preço é mais íntimo: o sujeito fica dependente de um olhar que autorize sua existência; ou se condena a uma solidão defensiva porque “ninguém entende mesmo”.

Uma vinheta comum: alguém diz “eu sempre escolho pessoas indisponíveis”. No início, isso pode soar como azar. Mas, ao localizar as suposições, o sujeito percebe que a indisponibilidade do outro mantém uma cena: se o outro não vem, eu não arrisco; se o outro não responde, eu posso permanecer na posição de esperar; se o outro falha, eu preservo um ideal intacto. A suposição tem função.

O que muda quando isso aparece

O efeito mais importante não é “acertar o endereço” de uma vez por todas. É ganhar uma margem de manobra. Quando o sujeito percebe sua fabricação, ele pode trocar a certeza pela pergunta, a sentença pela curiosidade, a demanda rígida por um pedido mais responsável.

Isso não torna as relações fáceis. Torna-as mais reais. Há menos captura no imaginário, menos tentativa de arrancar garantias do outro, menos necessidade de fechar o sentido à força. E, paradoxalmente, pode haver mais encontro: porque o encontro exige risco, e risco exige suportar que a garantia não vem.

Em última instância, a análise não dá um manual do “como falar certo”. Ela oferece uma experiência: falar e escutar de um modo em que o sujeito possa reconhecer o que se repete, o que insiste e o que se paga. E, a partir daí, escolher melhor: não no sentido moral, mas no sentido de construir um laço menos governado por automatismos e mais sustentado por um desejo que não precisa da assinatura do Outro para existir.

 
 
 
  • Foto do escritor: Arthur Alexander
    Arthur Alexander
  • 28 de set. de 2025
  • 3 min de leitura

Cada instante é uma encruzilhada, um caminho que se abre em muitos, como galhos de árvore que se multiplicam sem fim. Mas nossos olhos, pobres de alcance, só enxergam uns poucos desses rumos. A isso chamamos de criatividade: escolher, entre mil rios possíveis, aquele no qual lançamos o barco do nosso tempo e do nosso desejo.

De quando em quando, em raros momentos, acontece o milagre: o sonho vira matéria, a ideia ganha corpo, aquilo que vivia escondido na sombra da imaginação se mostra diante de nós. É como se um traço secreto do invisível se deixasse tocar.

Pois agora, com a realidade virtual e a inteligência artificial, o homem inventou um espelho novo. Pela primeira vez, podemos espiar aquilo que nunca existiu. Criar encontros que o tempo negou, reviver vozes que se calaram, ver um eu criança abraçando um eu já cansado da vida. Podemos pôr numa mesma sala mortos e vivos, futuros e passados, e brincar com mundos que não houve. A máquina nos devolve não só lembranças, mas futuros que sempre nos rondaram em silêncio, escondidos na dobra do desejo.

Mas aqui começa o problema. Desde sempre, a vida humana é costurada por uma falta, um vazio que nenhum objeto preenche. É disso que nasce o desejo. Freud chamou de pulsão essa força que empurra e insiste, mas nunca se satisfaz por inteiro. Lacan, mais tarde, disse que a verdadeira ética não é obedecer regras ou costumes, mas não trair o próprio desejo — não vender a alma em troca de pequenos confortos.

Só que o desejo é ardiloso. Ele se veste de imagens, se disfarça em objetos. E a máquina, com sua habilidade de fabricar simulacros, promete aquilo que é impossível: devolver o que se perdeu, consertar o que não aconteceu. Nesse ponto mora o risco: cair no gozo, essa repetição sem fim, esse prazer que nunca basta e só aumenta a sede. A tecnologia pode virar vício, espelho que prende, prisão encantada.

Mas há outro caminho. A pulsão, quando não busca a satisfação bruta, pode ser desviada, elevada, transfigurada. Freud chamou isso de sublimação: fazer da energia inquieta da vida uma obra, um poema, uma sinfonia. Lacan acrescentou: a arte é o gesto que não apaga a falta, mas a torna suportável — dá forma ao vazio, sem preenchê-lo.

E aqui a inteligência artificial pode ser parceira. Não para enganar o luto, mas para transformá-lo em criação. Não para substituir o Outro, mas para inventar novos modos de dizer. O mesmo programa que pode aprisionar em fantasias também pode abrir universos inéditos: dar voz a quem nunca a teve, criar imagens do que nunca foi visto, oferecer ao desejo um campo fértil para germinar em poesia.

Tudo depende, porém, da posição do sujeito. A linha é fina, quase invisível, entre o atalho para o gozo e o território da sublimação. Se buscamos a máquina como quem pede restituição — “traga-me de volta o que perdi” — ela nos aprisiona. Se a buscamos como matéria para inventar — “façamos do impossível uma obra” — ela nos liberta.

O futuro, portanto, não está na máquina. Está no gesto humano que a usa. A arte continua sendo o modo mais alto de lidar com o desejo: transformar a falta em criação, sem ceder à ilusão de completude.

E talvez, nesse limiar, esteja a verdadeira ética de nosso tempo: não deixar que a máquina nos dê respostas fáceis, mas fazer dela um espelho de enigmas. Porque a falta, essa ferida que nos move, não é defeito — é o que nos torna humanos.

 
 
 
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© 2025 por Arthur Alexander Abrahão

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