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    Arthur Alexander
  • há 3 dias
  • 2 min de leitura

Dificuldade em se relacionar pode não ser falta de esforço. Às vezes, o que se repete nos vínculos não está exatamente no que a pessoa faz, mas em algo que insiste sem que ela perceba.

Muitas pessoas se perguntam, em algum momento: por que meus relacionamentos não dão certo?

Não importa se são relações amorosas, amizades ou vínculos familiares. Algo parece sempre se repetir. Conflitos, afastamentos, frustrações… e, no final, uma dúvida que retorna de forma quase inevitável: o problema sou eu?

Essa pergunta costuma vir carregada de peso. E, ao mesmo tempo, pode ser um ponto de entrada importante — não para encontrar um culpado, mas para começar a se aproximar de algo que ainda não foi compreendido.

A dificuldade em se relacionar nem sempre aparece de forma evidente. Às vezes, ela se manifesta em relações intensas que acabam rápido. Em uma sensação constante de não ser compreendido. No medo de perder o outro, mesmo quando tudo parece estar bem. Ou, ainda, em um afastamento que acontece antes que algo mais profundo possa se construir.

Com o tempo, essas experiências podem produzir a impressão de que há algo errado consigo mesmo — como se houvesse um defeito, algo que impede que as relações se sustentem.

Mas nem sempre se trata de defeito.

Quem vive esse tipo de situação geralmente já tentou mudar. Tentou ser mais paciente, mais compreensivo, mais flexível. Tentou escolher pessoas diferentes, agir de outra forma, evitar certos comportamentos.

E, ainda assim, algo retorna.

Essa repetição costuma ser o que mais angustia. Porque dá a sensação de que não importa o esforço, o resultado tende a ser parecido.

Talvez, nesse ponto, a questão comece a se deslocar. Em vez de “o que eu estou fazendo de errado?”, algo como: o que, em mim, se repete sem que eu perceba?

Na psicanálise, não se trata apenas de escolhas conscientes. Há algo que insiste, que retorna, mesmo sem uma decisão clara. Não é planejado. Não é deliberado.

Mas aparece.

Na forma como alguém se envolve. No tipo de pessoa que atrai. Na maneira como interpreta o que o outro diz ou faz. Em pequenas reações que, pouco a pouco, vão organizando os vínculos sempre de um jeito semelhante.

Perguntar se o problema é “eu” pode facilmente levar para um lugar de culpa. Mas talvez não seja essa a direção mais interessante.

Talvez a questão não seja encontrar um erro, mas poder reconhecer algo da própria posição nas relações. Algo que não está totalmente à vista, mas que participa da forma como os encontros acontecem.

Isso muda o ponto de vista. Sai da ideia de consertar e se aproxima de outra possibilidade: a de entender o que está em jogo.

Nem sempre essa compreensão aparece como uma resposta direta. Muitas vezes, ela surge aos poucos, quando aquilo que antes se repetia automaticamente começa a ganhar alguma forma, algum contorno.

E, às vezes, é nesse movimento que algo pode se deslocar.

Não por esforço. Mas porque já não se trata exatamente do mesmo ponto.

Nem toda dificuldade em se relacionar é evidente. E nem tudo que se repete é simples de interromper sozinho.

Mas poder falar sobre isso — sem pressa, sem a exigência de encontrar uma solução imediata — já pode produzir um começo diferente.

 
 
 

Mudar de país não desloca apenas o corpo de um lugar para outro. Muitas vezes, algo em nós também se desloca. O que antes parecia familiar perde contorno, a língua deixa de acolher do mesmo modo, os vínculos se tornam mais distantes, e até aquilo que sustentava a rotina pode vacilar. Há quem descubra, só depois de emigrar, que a saudade não é apenas de um país, mas de uma forma de existir.

Do lado de fora, a mudança pode parecer bem-sucedida. Um novo trabalho, uma nova cidade, uma nova organização da vida. Mas, por dentro, nem sempre a travessia acontece com a mesma clareza. Há pessoas que se sentem suspensas entre dois mundos: já não habitam inteiramente o lugar de onde vieram, mas também ainda não se sentem pertencentes ao lugar em que estão. É como se algo ficasse em trânsito por tempo indeterminado.

Emigrar exige muito mais do que adaptação prática. Não se trata apenas de aprender caminhos, resolver documentos, organizar horários ou lidar com outra cultura. Há um trabalho psíquico envolvido nessa passagem. Cada mudança importante convoca perdas, reorganizações, renúncias e reinterpretações. Quando se sai de um país, não se deixa para trás apenas uma geografia. Deixam-se também cenas, cheiros, formas de falar, pequenos rituais, referências afetivas, versões de si que existiam em determinado contexto.

Por isso, a experiência de morar fora pode ser acompanhada por sentimentos difíceis de nomear. Às vezes, aparece a solidão. Em outras, uma angústia difusa, como se algo estivesse fora do lugar sem que se saiba exatamente o quê. Há também quem viva culpa por ter ido, culpa por ter deixado pessoas, culpa por ter desejado outra vida. E há quem sofra com a sensação de não conseguir mais voltar a ser quem era, nem conseguir ainda se tornar quem imaginava que seria.

Nem sempre esse sofrimento aparece de modo dramático. Muitas vezes, ele se insinua no cansaço, na irritação, na dificuldade de criar laços, na apatia, na insônia, no excesso de trabalho ou numa ansiedade que vai se espalhando pela rotina. Em alguns casos, o sujeito se vê funcionando bem por fora e, ainda assim, experimentando um vazio difícil de explicar. Em outros, a vida prática segue, mas algo do desejo se empobrece.


Há um ponto particularmente importante nessa experiência: a língua. Viver em outro idioma pode ampliar o mundo, mas também pode produzir um tipo de desencontro íntimo. Nem sempre conseguimos dizer de nós do mesmo modo em outra língua. Certas nuances do sofrimento, certas lembranças, certas formas de humor, de afeto e de dor parecem encontrar mais facilmente passagem na língua materna. Falar não é apenas transmitir informação; é também habitar um campo simbólico em que nos reconhecemos e somos reconhecidos.

É por isso que, para muitas pessoas que vivem fora do Brasil, poder falar em português num espaço de escuta faz diferença. Não porque a língua materna seja um refúgio idealizado, mas porque nela algo do sujeito pode reaparecer com menos esforço. Às vezes, o que estava endurecido em outra língua encontra, em português, uma forma mais viva de ser dito. E quando algo pode ser dito, já não pesa exatamente do mesmo modo.

A psicanálise não oferece uma adaptação pronta nem uma fórmula para apagar o mal-estar da emigração. Seu trabalho não é ensinar a “se encaixar” melhor, mas abrir um espaço em que o sujeito possa falar daquilo que vive, do que perdeu, do que repete, do que teme e do que deseja. Em vez de reduzir o sofrimento a um manual de ajuste, a escuta analítica permite que cada um encontre a lógica singular de sua travessia.

Isso é importante porque nem todo sofrimento de quem emigra diz respeito apenas ao presente. Muitas vezes, a mudança de país toca questões mais antigas: separações anteriores, experiências de desenraizamento, fantasias de recomeço, ideais de sucesso, modos de pertencer, conflitos familiares e impasses no desejo. A nova geografia pode reativar dores antigas ou expor, com mais nitidez, algo que antes ficava abafado pela rotina conhecida.

Em alguns casos, morar fora produz também uma experiência curiosa: a de se tornar estrangeiro para si mesmo. A pessoa já não se reconhece da mesma maneira. O que antes organizava sua identidade enfraquece, e surge a pergunta, nem sempre formulada, mas muitas vezes sentida: quem sou eu aqui? O que resta de mim longe daquilo que me nomeava? O que, em mim, dependia do lugar de onde vim? E o que pode nascer a partir desse desencontro?

Essas perguntas não precisam ser respondidas às pressas. Às vezes, o mais importante é sustentar um espaço onde elas possam existir. Um espaço em que não seja preciso demonstrar adaptação exemplar, nem justificar sofrimento, nem produzir rapidamente um sentido para tudo. Há experiências que só podem ser elaboradas quando encontram escuta.

O atendimento psicológico e psicanalítico online pode ser, para brasileiros no exterior, uma possibilidade importante de cuidado. Não para apagar a distância, mas para que ela possa ser simbolizada. Não para eliminar a falta, mas para que o sujeito não fique inteiramente capturado por ela. Em muitos casos, poder falar em português, com regularidade e escuta ética, permite recolocar algo em movimento onde antes havia apenas suspensão, desencontro ou peso.

Morar fora pode ampliar horizontes, mas também pode expor fragilidades, perdas e impasses subjetivos que nem sempre encontram lugar fácil na vida cotidiana. Quando isso acontece, falar pode ser mais do que desabafar. Pode ser uma forma de elaborar, de reencontrar um ponto de amarração e de construir outra relação com aquilo que hoje pesa.

Se você vive fora do Brasil e busca um espaço de escuta em língua portuguesa, o atendimento psicológico e psicanalítico online pode ser uma possibilidade importante.

(psicólogo online para brasileiros no exterior)

 
 
 
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    Arthur Alexander
  • 24 de mar.
  • 4 min de leitura

Ao entrar no campo da psicanálise lacaniana, é preciso abandonar a ideia de um sujeito pleno, consciente e senhor de si. Jacques Lacan opera uma verdadeira subversão: desloca o sujeito cartesiano — fundado na autoconsciência e na racionalidade — para um sujeito radicalmente dividido, marcado pela falta e constituído na linguagem. Este artigo explora o conceito de sujeito em Lacan, suas principais articulações e suas consequências para a clínica e para o pensamento psicanalítico contemporâneo.


A ruptura com as concepções tradicionais


Diferentemente do sujeito da filosofia clássica, que se define por sua transparência a si mesmo (“penso, logo existo”), o sujeito lacaniano é, desde o início, barrado ($). Ele não coincide consigo mesmo. Surge como efeito da linguagem e carrega, estruturalmente, uma divisão: entre o que diz e o que escapa à sua fala, entre o eu imaginário e o sujeito do inconsciente.

Essa divisão não é um defeito passageiro, mas a própria condição do sujeito. Ele se constitui no campo do Outro — tesouro dos significantes, linguagem, cultura, marcas familiares — e nunca consegue se fechar em uma identidade plena. Daí a importância clínica: o sofrimento psíquico frequentemente surge da tentativa vã de preencher essa falta ou de negar essa divisão.


Close-up view of a vintage typewriter with a blank sheet of paper
Máquina de escrever vintage simbolizando a linguagem e o registro simbólico

Constituição do sujeito: estádio do espelho e entrada no simbólico


Lacan descreve um primeiro momento dessa constituição no estádio do espelho (1949). Entre 6 e 18 meses, a criança reconhece sua imagem no espelho como uma totalidade unificada. Essa identificação produz o eu (moi) — uma formação imaginária, alienada, que oferece uma ilusão de completude a um corpo ainda fragmentado e descoordenado.

No entanto, essa imagem é capturante: o sujeito se aliena nela. O eu se forma como defesa diante da falta, mas carrega, desde o início, a marca da alteridade. É o Outro — o adulto que sustenta a criança diante do espelho — que lhe devolve essa imagem. Assim, desde o imaginário, o sujeito já está marcado pela dependência e pela alienação.

A constituição decisiva do sujeito, porém, ocorre com a entrada no registro do Simbólico, quando a criança é tomada pela linguagem. Aqui, Lacan retoma Freud: o inconsciente é estruturado como uma linguagem. O sujeito emerge como efeito de significante: ele é aquilo que um significante representa para outro significante. Ao falar, o sujeito se divide — o que enuncia nunca coincide totalmente com o que é.

Essa divisão se aprofunda nas operações lógicas de alienação e separação (Seminário XI). Na alienação, o sujeito deve escolher entre o ser e o sentido; perde uma parte de si ao se inscrever no campo do Outro. Na separação, confronta-se com o desejo do Outro e tenta recuperar algo dessa perda por meio do objeto a — resto irredutível, causa do desejo, aquilo que nunca completa o sujeito, mas o mantém desejante.


O que é o sujeito para Lacan?


O sujeito lacaniano é, antes de tudo, sujeito do inconsciente. Ele não é substância, nem consciência, nem identidade fixa. É um sujeito barrado ($), atravessado pelo desejo do Outro e habitado por um saber que lhe escapa. Manifesta-se nos lapsos, atos falhos, sonhos, sintomas e equívocos da fala — formações em que o inconsciente “fala” apesar do eu.

Longe de ser um ser isolado, o sujeito é radicalmente dependente do Outro. Não existe sujeito sem alteridade: é no encontro com a linguagem e com o desejo do Outro que ele se inscreve. Por isso, o desejo humano nunca é simplesmente “seu”: é sempre desejo do Outro — desejo de ser reconhecido, de ocupar um lugar, de responder à pergunta: “o que o Outro quer de mim?”.


Eye-level view of a bookshelf filled with psychoanalytic literature
Estante com livros de psicanálise representando o estudo e a teoria lacaniana

Implicações clínicas


Na prática analítica, reconhecer o sujeito como dividido muda tudo. O analista não busca “consertar” o paciente, preencher sua falta ou fortalecê-lo como um eu forte e adaptado. Ao contrário, cria as condições para que o sujeito possa enfrentar sua divisão e sua falta sem tentar apagá-las.

A escuta lacaniana privilegia o que tropeça na fala: o equívoco, o silêncio, o significante insistente. O sintoma não é um mero defeito a ser eliminado, mas uma solução singular que o sujeito encontrou para lidar com o impasse de seu desejo. O trabalho analítico visa permitir que o sujeito se aproprie de sua própria divisão, atravesse o fantasma que organiza sua realidade e invente uma nova relação com o gozo e com o desejo.

Não se trata de alcançar uma totalidade impossível, mas de suportar a falta de maneira menos sofrida — ou, como Lacan dirá mais tarde, de saber fazer com o sintoma.


Reflexões finais


O conceito de sujeito em Lacan representa uma das contribuições mais radicais da psicanálise ao pensamento contemporâneo. Ao mostrar que o sujeito é efeito da linguagem, marcado pela falta e atravessado pelo Outro, Lacan nos liberta tanto da ilusão de uma autonomia plena quanto da redução biologizante ou sociologizante do ser humano.

Para o clínico, essa concepção exige humildade e rigor: respeitar a singularidade de cada sujeito, escutar o que se diz para além do que se pretende dizer e sustentar a abertura do desejo. Para quem estuda psicanálise, é um convite permanente à investigação — não para dominar uma teoria, mas para deixar-se interrogar por ela.

Compreender o sujeito lacaniano não é apenas adquirir conhecimento. É aprender a habitar, com mais verdade, a condição humana: dividida, desejante e irredutivelmente aberta ao Outro.

 
 
 
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© 2026 por Arthur Alexander Abrahão

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