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    Arthur Alexander
  • 12 de jul.
  • 5 min de leitura

Atualizado: 13 de jul.


O desejo nasce onde algo falta

Lacan nos ensinou que o desejo não é uma simples vontade. Não é querer um carro, uma casa, um corpo, uma pessoa, uma vida mais confortável. Isso é demanda, necessidade, consumo, distração. O desejo é mais traiçoeiro. Ele nasce justamente onde algo falta. E, porque falta, ele cria mundo. O desejo abre estrada no deserto. Faz existir uma cidade onde antes havia apenas areia. Faz alguém atravessar anos por uma frase que nunca veio, por um olhar que talvez tenha prometido demais, por um amor que existiu menos no mundo do que na cena íntima da fantasia.

O desejo nos promete algo e, nessa promessa, nos faz caminhar para lugares que antes não existiam.

No amor, não se perde apenas alguém

É assim no amor. A pessoa não ama apenas o outro. Ama também aquilo que o outro faz brilhar nela. Ama a versão de si mesma que aparece diante daquele olhar. Ama a cena que construiu, a história que começou a escrever sem perceber, o futuro que se desenhou antes mesmo de ser vivido. Por isso, algumas relações são tão difíceis de abandonar. Não se perde apenas alguém. Perde-se um teatro inteiro. Perde-se o papel, o cenário, a esperança, a frase que um dia talvez fosse dita.

O sujeito, diante do amor, não quer apenas ser amado. Quer saber o que é para o desejo do Outro.

“Quem sou eu para você?”

Essa pergunta, quase nunca dita dessa forma, atravessa tantas relações. Ela aparece como ciúme, como cobrança, como silêncio, como sintoma, como insônia, como necessidade de prova. A pessoa pede amor, mas o que busca é outra coisa: busca um lugar. Um lugar no desejo do outro. Um lugar que lhe diga que sua existência não é qualquer coisa.

E aí começa o perigo.

Porque o amor pode se tornar uma prisão quando o sujeito aceita sofrer apenas para não perder esse lugar. Ele sabe que dói, sabe que se diminui, sabe que repete a mesma cena, mas continua. Continua porque sair dali não significaria apenas terminar uma relação. Significaria encarar o abismo de não saber mais quem é sem aquela promessa.

O desejo é cruel porque não aponta para o objeto real, mas para o objeto perdido. O que buscamos no outro nunca está exatamente no outro. Está nesse resto, nesse brilho, nesse objeto pequeno a, causa do desejo, que faz o outro parecer portador de uma resposta. Não é que o outro tenha a resposta. É que, por um instante, ele encarna a pergunta.

E nós confundimos.

Confundimos amor com salvação. Confundimos saudade com destino. Confundimos intensidade com verdade. Confundimos sofrimento com profundidade. Há relações que parecem grandes não porque nos fazem bem, mas porque reabrem feridas antigas com uma precisão quase artística. O sujeito diz: “nunca amei assim”. Talvez. Mas talvez nunca tenha sofrido de forma tão familiar.

A repetição se veste de novidade

A repetição tem esse cinismo: ela se veste de novidade.

Trocam-se os nomes, os rostos, os endereços, mas a cena retorna. De novo a espera. De novo a angústia. De novo a pessoa indisponível. De novo a tentativa de ser finalmente escolhido. De novo o esforço para arrancar do outro uma palavra que pacifique o corpo. E, quando a palavra vem, ela dura pouco. Porque nenhuma palavra do outro consegue suturar definitivamente a falta.

O desejo não quer ser satisfeito. O desejo quer continuar desejando.

É por isso que certas promessas sustentam uma vida inteira. “Um dia ele muda.” “Um dia ela entende.” “Um dia eu serei amado como preciso.” “Um dia isso tudo fará sentido.” E esse “um dia” vira uma religião íntima. A pessoa passa a viver não com o outro real, mas com o outro possível. O parceiro concreto decepciona, machuca, desaparece, agride com silêncio ou indiferença. Mas o parceiro imaginário permanece intacto, luminoso, sempre prestes a chegar.

O sujeito não está preso apenas ao que vive. Está preso ao que espera.

Quando a esperança também faz sofrer

E a esperança, quando se mistura ao gozo, pode ser uma forma refinada de sofrimento. Porque há um gozo em repetir, mesmo quando se sofre. Um gozo estranho, paradoxal, que não é prazer, mas insistência. Algo em nós retorna ao mesmo ponto, como se ali houvesse uma verdade escondida. Como se, dessa vez, a ferida pudesse ter outro final.

Pessoa caminha por trilha dourada luminosa rumo a cidade fantástica com arcos, em vale sombrio e céu etéreo.
Um homem caminha por um caminho dourado em direção a uma cidade celestial, rodeada por nuvens etéreas e estruturas magníficas, simbolizando uma jornada espiritual ou de autodescoberta.

A análise começa quando a repetição pode ser escutada

A análise começa quando essa repetição pode ser escutada.

Não para dizer ao sujeito o que fazer. Não para ordenar: “termine”, “fique”, “esqueça”, “supere”. A psicanálise não é uma polícia da felicidade. Ela não distribui conselhos como quem vende manual de vida. A análise pergunta outra coisa: qual é a sua parte nessa cena? Que lugar você ocupa nesse sofrimento? O que você chama de amor talvez esteja servindo a qual fantasia? O que você teme perder quando diz que não consegue ir embora?

Porque, muitas vezes, o sujeito não teme perder apenas o outro. Teme perder a própria montagem que o sustentava.

Há quem prefira uma dor conhecida a uma liberdade sem garantias. Há quem permaneça no inferno porque, ao menos ali, sabe o caminho dos corredores. A saída assusta porque não oferece personagem pronto. Fora daquela relação, talvez seja preciso inventar outra maneira de existir. E inventar-se dá trabalho. Dá medo. Dá luto.

Mas há um momento em que o desejo pode deixar de ser apenas prisão e voltar a ser abertura.

Quando o sujeito começa a distinguir desejo de demanda, amor de dependência, esperança de repetição, promessa de realidade, algo se desloca. Não necessariamente de uma vez. Não como nos filmes, onde alguém fecha a porta, atravessa a rua e renasce ao som de uma música triunfal. Na vida real, as separações importantes acontecem primeiro dentro da linguagem. A pessoa começa a dizer de outro modo aquilo que antes apenas sofria.

E quando se diz de outro modo, já não se está exatamente no mesmo lugar.

Talvez o desejo continue prometendo. Ele sempre promete. Mas a análise pode ajudar o sujeito a não obedecer cegamente a toda promessa. Pode ajudá-lo a perguntar: para onde estou caminhando? O que essa promessa me custa? O que, em mim, insiste em permanecer onde dói? E que outro caminho pode começar a existir quando deixo de esperar que o outro me entregue a resposta sobre quem sou?

O desejo inventa caminhos onde antes só havia vazio.

Mas nem todo caminho precisa levar de volta ao mesmo sofrimento.

Às vezes, a travessia mais difícil não é abandonar alguém. É abandonar a fantasia de que, naquele alguém, finalmente encontraríamos aquilo que nos falta.

E, ainda assim, há vida depois disso.

Não uma vida completa, sem falta, sem angústia, sem desejo. Isso seria propaganda enganosa. Mas uma vida menos ajoelhada diante da promessa do outro. Uma vida em que o sujeito possa desejar sem se destruir, amar sem desaparecer, perder sem deixar de existir.

Porque talvez amadurecer no amor seja isto: descobrir que ninguém nos salvará da falta.

E, apesar disso, continuar caminhando.



 
 
 

Você sabe que a relação lhe faz mal. Já pensou em terminar, conversou com amigos, enumerou tudo o que sofreu e talvez tenha prometido a si mesmo que daquela vez seria diferente. Ainda assim, quando chega o momento de ir embora, alguma coisa o impede.

O medo aparece, a culpa aumenta, as lembranças boas retornam e a certeza desaparece. Aquilo que parecia tão claro durante uma discussão se torna confuso quando surge a possibilidade real da separação.

Por que é tão difícil deixar um relacionamento, mesmo quando permanecer nele também dói?

A resposta não está apenas na falta de coragem ou de força de vontade. Um relacionamento não é sustentado somente pelo que acontece no presente. Ele também pode estar ligado a expectativas, fantasias, medos, histórias anteriores e formas inconscientes de buscar amor e reconhecimento.

Saber que o relacionamento faz mal nem sempre é suficiente

Não consigo terminar meu relacionamento: por que continuo em uma relação que me faz mal?

Do ponto de vista racional, você pode reconhecer que a relação provoca sofrimento. Pode perceber que há desrespeito, indiferença, discussões frequentes, promessas que nunca se realizam ou uma sensação constante de solidão, mesmo estando acompanhado.

Mas os vínculos afetivos não se organizam apenas pela razão.

Uma pessoa pode compreender intelectualmente que deveria terminar e, ainda assim, sentir-se incapaz de fazê-lo. Isso acontece porque o relacionamento não ocupa apenas um lugar na rotina. Ele também pode ter se tornado parte da maneira como a pessoa se percebe, organiza a própria vida e imagina o futuro.

Terminar não significa apenas perder o outro. Em muitos casos, significa perder também planos, identificações, hábitos, expectativas e uma versão de si construída dentro daquela relação.

Por isso, algumas separações provocam uma sensação de desorganização profunda. A pessoa não pergunta somente “como vou viver sem ele ou sem ela?”, mas, mesmo sem perceber, também pode perguntar: “quem serei eu depois disso?”.


Você pode estar ligado não apenas à pessoa, mas ao que esperava viver com ela

Nem sempre permanecemos presos ao relacionamento que realmente existe. Muitas vezes, permanecemos ligados ao relacionamento que imaginamos que poderia existir.

A pessoa pode continuar esperando que o parceiro volte a ser como era no início, amadureça, reconheça seus erros, cumpra as promessas ou finalmente ofereça o amor que parecia possível.

Nesse caso, o vínculo não se mantém apenas pelo presente, mas pela esperança.

É possível amar não somente a pessoa real, com suas escolhas e limitações, mas também a imagem daquilo que ela poderia se tornar. Essa expectativa pode sustentar a relação durante anos.

Cada reconciliação, pedido de desculpas ou período de tranquilidade pode renovar a promessa de que, dessa vez, tudo será diferente. Quando os problemas retornam, a pessoa sofre novamente, mas continua ligada à possibilidade de mudança.

Abandonar o relacionamento pode significar abandonar essa esperança. E renunciar a uma esperança pode ser tão doloroso quanto perder alguém.

Mulher pensativa sentada no sofá, olhando a sombra de um casal separado por um rasgo na parede, em sala escura com abajur e planta.
Mulher contemplando suas emoções profundas, enquanto pondera a difícil decisão de uma possível separação, projetada pela imagem rasgada no fundo.

O medo da solidão pode parecer maior do que o sofrimento da relação

Algumas pessoas permanecem em relacionamentos dolorosos porque a possibilidade de ficar sozinhas desperta uma angústia ainda maior.

Mesmo uma relação insatisfatória pode oferecer uma sensação de familiaridade. A pessoa já conhece os conflitos, sabe como o outro reage e aprendeu a sobreviver dentro daquela dinâmica.

A separação, por outro lado, representa o desconhecido.

Podem surgir perguntas como:

“Será que alguém vai me amar novamente?”

“E se eu me arrepender?”

“E se ele ou ela encontrar outra pessoa?”

“E se eu descobrir que o problema era comigo?”

“E se eu não conseguir seguir em frente?”

Essas perguntas nem sempre dizem respeito apenas ao término atual. Elas podem tocar experiências antigas de abandono, rejeição, desamparo ou falta de reconhecimento.

Nessas situações, permanecer no relacionamento pode funcionar como uma tentativa de evitar uma dor mais profunda, ainda que essa permanência produza sofrimento.

A culpa também pode impedir uma separação

A culpa costuma ocupar um lugar importante nos relacionamentos difíceis.

A pessoa pode sentir que está abandonando alguém que precisa dela, destruindo uma família, decepcionando os pais, prejudicando os filhos ou desistindo cedo demais.

Também pode acreditar que, se tivesse sido mais paciente, mais compreensiva ou menos exigente, o relacionamento teria funcionado.

Essa culpa pode fazer com que a responsabilidade pela relação seja assumida de forma desigual. A pessoa passa a acreditar que cabe a ela salvar o vínculo, compreender tudo, perdoar sempre e esperar indefinidamente.

Em alguns relacionamentos, o parceiro também reforça essa culpa por meio de frases como:

“Você está desistindo de nós.”

“Ninguém vai amar você como eu amo.”

“Depois de tudo o que fiz por você, é assim que me agradece?”

“Você está destruindo nossa família.”

“Sem você, eu não tenho mais ninguém.”

Essas falas podem tornar a separação ainda mais difícil, pois colocam sobre uma única pessoa a responsabilidade pelo bem-estar emocional do outro.

No entanto, permanecer em uma relação apenas por culpa não é o mesmo que permanecer por desejo.

Dependência emocional não significa simplesmente fraqueza

A expressão “dependência emocional” é frequentemente utilizada como se explicasse tudo. A pessoa é chamada de dependente e passa a se sentir ainda mais culpada por não conseguir sair.

Mas um vínculo afetivo não pode ser reduzido apenas a um rótulo.

É necessário compreender qual função aquela relação ocupa na vida da pessoa.

O relacionamento pode oferecer reconhecimento, sensação de pertencimento, estabilidade financeira, proteção contra a solidão ou a impressão de possuir um lugar no mundo. Também pode sustentar uma imagem de sucesso, de família ou de realização pessoal.

Em alguns casos, a pessoa acredita que precisa ser amada pelo outro para confirmar o próprio valor.

Quando o parceiro se afasta, ela sente que perdeu não apenas o amor, mas também a segurança sobre quem é. Por isso, busca novamente a aproximação, mesmo sabendo que o ciclo de sofrimento poderá recomeçar.

A questão não é apenas “por que não consigo ir embora?”, mas também: “o que acredito que perderei de mim se essa relação terminar?”.

Por que algumas histórias parecem se repetir?

Há pessoas que percebem estar vivendo relações muito parecidas ao longo da vida.

Os parceiros mudam, mas certas situações retornam: medo de abandono, ciúme, indisponibilidade emocional, necessidade de aprovação, traições, humilhações ou a sensação de precisar lutar constantemente para ser amado.

Essa repetição não acontece porque a pessoa deseja conscientemente sofrer.

Na psicanálise, a repetição pode ser compreendida como uma tentativa inconsciente de reencontrar e resolver algo que permaneceu em aberto. A pessoa pode se sentir atraída por situações conhecidas, mesmo quando dolorosas, porque aquilo que é familiar oferece uma forma de organização.

Alguém que aprendeu muito cedo que o amor precisa ser conquistado pode, por exemplo, envolver-se repetidamente com pessoas emocionalmente indisponíveis. A dificuldade do parceiro pode reforçar a ideia de que é preciso fazer mais, agradar mais ou suportar mais para finalmente merecer amor.

Nesse caso, o sofrimento não está apenas no relacionamento atual. Ele também pode estar ligado a uma forma antiga de se posicionar diante do desejo do outro.

Compreender essa repetição não significa culpar a pessoa por suas escolhas. Significa criar condições para que ela deixe de viver a mesma história sem perceber.

Às vezes, os momentos bons tornam tudo mais confuso

Relacionamentos difíceis raramente são ruins o tempo inteiro.

Se fossem, talvez fosse mais fácil sair.

Existem lembranças felizes, momentos de carinho, viagens, intimidade, projetos compartilhados e períodos em que o parceiro parece voltar a ser aquela pessoa do início.

Esses momentos podem reforçar o vínculo e fazer a pessoa questionar a própria percepção.

Ela pode pensar:

“Talvez eu esteja exagerando.”

“Ele também tem qualidades.”

“Nem tudo é ruim.”

“Nós já fomos felizes.”

Essas afirmações podem ser verdadeiras. O fato de existirem momentos bons, no entanto, não apaga aquilo que produz sofrimento.

Uma relação pode conter amor e, ainda assim, não conseguir oferecer condições para que esse amor seja vivido de forma saudável.

Reconhecer o que houve de bom não obriga ninguém a permanecer em uma relação que se tornou destrutiva.

O corpo também pode indicar que algo não está bem

Quando uma pessoa permanece por muito tempo em uma situação de tensão, o sofrimento pode aparecer no corpo.

Insônia, ansiedade, dores de cabeça, alterações no apetite, crises de choro, cansaço constante, palpitações e dificuldade de concentração podem acompanhar relações marcadas por medo, instabilidade e conflitos frequentes.

A pessoa pode viver em estado de vigilância, esperando a próxima discussão, o próximo afastamento ou a próxima mudança de humor do parceiro.

Mesmo quando nada está acontecendo, ela não consegue relaxar.

Esses sintomas não devem ser interpretados de maneira isolada, mas podem indicar que a relação está exigindo um custo emocional significativo.

A psicanálise não decide se você deve terminar

A função da análise não é dizer à pessoa se ela deve permanecer ou sair de um relacionamento.

O analista não ocupa o lugar de quem fornece uma resposta pronta.

A psicanálise pode ajudar a pessoa a compreender o que a mantém naquela relação, quais medos aparecem diante da separação e por que determinados vínculos parecem se repetir.

Ao falar sobre a relação, a pessoa pode começar a distinguir o que deseja daquilo que acredita ser obrigada a fazer. Pode perceber quando permanece por amor, por medo, por culpa, por dependência ou pela esperança de finalmente ser reconhecida.

Esse processo também pode ajudar a recuperar algo que, muitas vezes, foi perdido dentro da relação: a possibilidade de escutar a si mesma.

Em certos relacionamentos, a pessoa passa tanto tempo tentando compreender o outro que deixa de perguntar o que ela própria sente e deseja.

A análise pode abrir um espaço para que essa pergunta volte a existir.

Você não precisa esperar chegar ao limite

Muitas pessoas procuram ajuda apenas quando sentem que não conseguem mais suportar.

Mas não é necessário esperar que o sofrimento se torne insuportável para começar uma análise.

A dificuldade de terminar um relacionamento pode ser um sinal de que há algo importante a ser compreendido. Não apenas sobre o parceiro, mas sobre a maneira como você se vincula, ama, espera e busca reconhecimento.

Talvez a questão não seja somente por que você não consegue terminar.

Talvez seja também por que precisa permanecer em um lugar onde sofre para continuar acreditando que pode ser amado.

A resposta não será igual para todas as pessoas. Cada relacionamento possui uma história, e cada sujeito ocupa nele uma posição singular.

Compreender essa posição pode não eliminar imediatamente a dor, mas pode permitir que uma decisão deixe de ser conduzida apenas pelo medo e passe a considerar também o próprio desejo.

Se você vive um relacionamento que lhe causa sofrimento e deseja compreender melhor o que o mantém preso a esse vínculo, a psicoterapia pode oferecer um espaço de escuta e elaboração.

Realizo atendimentos psicológicos e psicanalíticos para adultos, presencialmente em Santos e também na modalidade online.

Entre em contato para saber como funcionam as sessões.

Observação importante: quando há violência física, ameaças, coerção, perseguição ou risco à integridade, a prioridade deve ser a segurança. Procure pessoas de confiança e serviços especializados de proteção.

 
 
 

Dor de uma perda como cura na psicanálise: quando o sofrimento permite elaborar perdas


Na psicanálise, a dor de uma perda ou separação não é entendida apenas como um sofrimento a ser eliminado rapidamente. Em muitos casos, ela faz parte do trabalho de luto, isto é, do processo psíquico pelo qual o sujeito tenta elaborar a perda de alguém, de um vínculo, de um lugar ou mesmo de uma imagem de futuro. Quando amamos, não amamos de forma abstrata: há um investimento psíquico nesse objeto amado. Na linguagem freudiana, esse investimento pode ser chamado de catexia, ou, de modo mais simples, investimento libidinal. A libido, aqui, não deve ser entendida apenas no sentido sexual restrito, mas como a energia psíquica que sustenta o desejo, o apego, o amor e a ligação do sujeito com aquilo que lhe importa.

É por isso que a perda dói tanto. O que foi investido no outro, no vínculo ou naquilo que se perdeu não se desfaz de imediato. No luto, o psiquismo precisa realizar um trabalho difícil de desinvestimento: retirar, pouco a pouco, a catexia que mantinha aquele objeto intensamente vivo na realidade psíquica. Esse processo não é simples, porque o objeto perdido continua, por um tempo, presente na memória, na fantasia, na expectativa e nos hábitos afetivos do sujeito. A dor aparece justamente nesse intervalo em que o objeto já não está mais ali como antes, mas a libido ainda permanece ligada a ele.

Nesse sentido, a dor não é só um acidente do luto; ela é também o sinal de que há um desligamento em curso. A pessoa sofre porque continua amando, desejando, esperando ou respondendo internamente a algo que já não pode mais ser mantido da mesma forma. Por isso, em psicanálise, não se trata de apressar um esquecimento artificial nem de exigir que o sujeito “supere” rapidamente aquilo que perdeu. O essencial é que esse sofrimento possa ser simbolizado, isto é, colocado em palavras, elaborado e inscrito na própria história.

É nesse ponto que a análise pode ter um valor decisivo. Ao oferecer um espaço de fala, ela permite que a dor deixe de ser apenas uma pressão muda e passe a ser trabalhada psiquicamente. O sujeito pode então reconhecer em que estava investido, o que exatamente perdeu, o que daquela perda toca sua história infantil, seus modos de amar e suas formas de se ligar ao outro. Em vez de permanecer inteiramente capturado pela ausência, ele começa a elaborar o desinvestimento do objeto perdido.

Mulher sentada perto da janela, envolta em pensamentos ao pôr do sol, com luz suave iluminando a cena.
Mulher sentada perto da janela, envolta em pensamentos ao pôr do sol, com luz suave iluminando a cena.

Quando esse trabalho avança, algo fundamental pode acontecer: a libido volta a circular. Tecnicamente, isso não significa que ela simplesmente “retorna” como se tivesse desaparecido, mas que a energia antes fixada de modo predominante naquele objeto pode se desprender e tornar-se novamente disponível para novos investimentos. Em outras palavras, a libido desinvestida do objeto perdido pode ser reinvestida em outros objetos, interesses, projetos, vínculos e formas de desejar. É esse movimento que permite que a vida psíquica retome seu curso, sem que a perda precise ser negada.

Assim, a cura não consiste em apagar a dor, mas em transformá-la por meio da elaboração. O sujeito não sai ileso de uma perda importante, mas pode deixar de estar paralisado por ela. Quando o luto se faz possível, o investimento não fica eternamente congelado no passado. A dor, então, deixa de ser apenas sinal de fixação e pode tornar-se uma travessia: o tempo em que o psiquismo retira sua catexia de um objeto perdido para que a libido, aos poucos, volte a investir a vida.

Por isso, dizer que a dor pode ter uma função de cura não significa glorificar o sofrimento. Significa reconhecer que, em certas experiências, atravessar a dor é parte do trabalho necessário para que o sujeito não permaneça aprisionado à perda. A análise ajuda justamente nisso: a sustentar o tempo da elaboração, a favorecer o desinvestimento do que foi perdido e a abrir caminho para que o desejo, em vez de ficar fixado ao ausente, possa novamente encontrar novos destinos.


 
 
 
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© 2026 por Arthur Alexander Abrahão

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