
Há alguém deitado ao seu lado.
Você conhece o corpo, o cheiro, a maneira como respira quando adormece, a pequena mudança no rosto quando alguma coisa incomoda. Conhece histórias, medos, hábitos. Sabe o que essa pessoa gosta de comer, talvez saiba até o que ela responderá antes que responda.
E, ainda assim, existe alguém ali que você nunca conhecerá completamente.
Talvez o amor comece justamente nesse estranho território entre aquilo que sabemos sobre o outro e aquilo que inventamos sobre ele.
Porque nunca amamos apenas uma pessoa tal como ela é.
Amamos também aquilo que colocamos nela.
Um olhar pode carregar uma promessa que nunca foi feita. Um silêncio pode transformar-se em mistério. Um gesto banal pode ganhar uma importância desmedida. Uma mensagem de poucas palavras atravessa o dia inteiro e, quando chega a noite, já possui dezenas de significados que talvez jamais tenham passado pela cabeça de quem a escreveu.
O outro faz um pequeno movimento.
Nós construímos um oceano.
É nesse espaço que a fantasia começa a trabalhar.
Para Lacan, não encontramos o mundo de maneira neutra. Não olhamos para uma pessoa como quem observa um objeto perfeitamente iluminado sobre uma mesa. Chegamos ao encontro carregando nossa história, nossos primeiros amores, nossas perdas, nossos medos, os lugares que ocupamos diante do desejo daqueles que nos antecederam e, sobretudo, aquilo que nos falta.
Antes mesmo de sabermos quem o outro é, alguma coisa nele pode tocar essa falta.
E então acontece algo extraordinário.
Aquela pessoa deixa de ser apenas uma pessoa.
Passa a ocupar um lugar.
Talvez seja por isso que às vezes nos apaixonamos antes mesmo de conhecer verdadeiramente alguém.
Sabemos quase nada e sentimos quase tudo.
Algumas conversas, dois encontros, um determinado modo de sorrir, a voz, o cabelo caindo sobre o rosto, uma forma de olhar enquanto escuta alguma coisa. Elementos pequenos começam a girar dentro de nós como dados lançados sobre uma mesa.
E a partir deles construímos mundos.
O desejo é um excelente arquiteto.
Com muito pouco material consegue erguer cidades inteiras.
Lacan chamou de objeto a alguma coisa muito particular que participa desse processo. Não se trata simplesmente do objeto que desejamos. É aquilo que parece causar o desejo. Um detalhe difícil de explicar, algo que encontramos no outro e que parece apontar para alguma coisa que perdemos sem jamais saber exatamente quando possuímos.
Por isso é tão difícil responder à pergunta:
— Por que justamente essa pessoa?
Podemos fazer uma lista.
Ela é bonita. Inteligente. Engraçada. Delicada. Forte. Tem determinados valores. Gosta das mesmas coisas.
Mas conhecemos outras pessoas bonitas, inteligentes, engraçadas e delicadas.
Não é suficiente.
Há alguma coisa naquela.
Um resto.
Um jeito de olhar.
Uma voz.
Um cheiro.
Uma imperfeição.
Uma forma de atravessar uma sala.

Alguma coisa que escapa à explicação e, justamente porque escapa, começa a nos capturar.
O problema é que rapidamente confundimos aquilo que encontramos com aquilo que colocamos.
A pessoa real continua ali, é claro. Com sua história, seus próprios desejos, contradições, traumas, pequenas crueldades, generosidades inesperadas, dias de mau humor, desejos que não nos incluem e pensamentos aos quais nunca teremos acesso.
Mas sobre essa pessoa real começa a se sobrepor outra.
A pessoa da fantasia.
É nela que depositamos frases nunca ditas.
Intenções nunca confirmadas.
Futuros que nunca existiram.
Às vezes construímos até lembranças de acontecimentos que jamais aconteceram.
Imaginamos uma viagem.
Uma casa.
Uma manhã qualquer.
Uma conversa que teremos daqui a dez anos.
A maneira como seríamos abraçados depois de um dia difícil.
O que aquela pessoa faria se estivéssemos doentes.
Como envelheceríamos juntos.
Nada disso aconteceu.
E, contudo, emocionalmente alguma coisa já aconteceu.
O corpo responde a uma história que só existe dentro de nós.
Talvez seja uma das coisas mais belas e mais perigosas do amor.
Podemos sentir saudade de um futuro que nunca existiu.
É aqui que começamos a compreender por que o amor carrega uma fantasia impossível.
O impossível não significa que amar seja impossível.
Significa outra coisa.
A fantasia secreta de muitos amores é a de que, em algum ponto, o outro conseguirá finalmente nos completar.
Não pensamos necessariamente dessa maneira.
Ninguém precisa caminhar pela casa dizendo:
— Espero que esta pessoa resolva minha falta estrutural.
A fantasia é mais elegante.
Ela diz:
Finalmente alguém me vê.
Finalmente alguém me compreende.
Com essa pessoa poderei descansar.
Ela nunca me abandonará.
Ele sabe quem eu sou.
Agora encontrei aquilo que procurei durante toda a vida.
Talvez uma das frases mais perigosas do amor seja justamente uma das mais bonitas:
“Você era aquilo que faltava em mim.”
Porque o outro pode nos oferecer amor, companhia, cuidado, erotismo, palavras, presença, projetos, filhos, viagens, noites inesquecíveis.
Pode transformar profundamente nossa vida.
Mas há uma coisa que ele não pode fazer.
Eliminar nossa falta.
Porque essa falta não é um defeito produzido pela ausência daquela pessoa.
Para Lacan, ela participa da própria constituição do sujeito.
Somos seres atravessados pela linguagem, condenados de alguma maneira a procurar palavras para experiências que nunca cabem inteiramente nelas. Desejamos alguma coisa e, quando finalmente a conseguimos, descobrimos que o desejo já começou a se deslocar novamente.
Há sempre um resto.
Uma pequena distância entre aquilo que imaginamos encontrar e aquilo que encontramos.
É por isso que Lacan chega à sua famosa formulação de que “não há relação sexual”.
A frase parece absurda se tomada literalmente.
Lacan não está dizendo que as pessoas não fazem sexo ou não constroem relações.
Está dizendo que não existe uma fórmula capaz de fazer dois sujeitos se encaixarem perfeitamente, como duas peças que teriam sido produzidas uma para a outra.
Não existe complementaridade completa.
Nenhum homem contém aquilo que completaria definitivamente uma mulher.
Nenhuma mulher possui aquilo que completaria definitivamente um homem.
Nenhum sujeito possui a peça secreta capaz de fechar o outro.
Dois amantes podem se abraçar durante a madrugada inteira.
E ainda serão dois.
Talvez aí esteja a tragédia.
Mas talvez esteja também a beleza.
Porque durante algum tempo a paixão tenta negar essa distância.
Os amantes querem entrar um no outro.
Querem saber tudo.
Querem tocar tudo.
Querem que o outro diga aquilo que esperavam ouvir antes mesmo de saberem que esperavam.
Querem ocupar seus pensamentos.
Querem ser insubstituíveis.
Querem eliminar qualquer distância entre dois corpos.
Por alguns instantes, especialmente no início de uma paixão, isso quase parece possível.
O mundo muda de temperatura.
As músicas ganham significado.
As ruas parecem diferentes.
Um restaurante deixa de ser apenas um restaurante.
Uma cadeira vazia pode produzir angústia.
Um cheiro atravessando um corredor pode desencadear uma tempestade.
O tempo se comporta de maneira estranha: minutos juntos desaparecem e algumas horas separados parecem dias.
A fantasia começa a deformar o espaço.
Até que o outro faz alguma coisa inesperada.
Não responde como deveria.
Deseja alguma coisa que não desejamos.
Escolhe ficar sozinho.
Não percebe aquilo que para nós parecia evidente.
Não corresponde à personagem que silenciosamente escrevemos para ele.
Então surge uma frase muito comum nas separações:
— Você mudou.
Às vezes mudou.
Mas outras vezes aconteceu algo mais doloroso.
O outro começou a escapar da nossa fantasia.
Descobrimos que aquela pessoa não era exatamente quem imaginávamos.
Talvez nunca tenha sido.
E nesse momento alguma coisa decisiva acontece com o amor.
Há quem tente obrigar o outro a voltar para o personagem.
“Você não era assim.”
“Você deveria saber.”
“Se me amasse, faria isso.”
“Eu achei que você fosse diferente.”
É uma tentativa desesperada de restaurar o roteiro.
Faça novamente o papel que escrevi para você.
Deseje aquilo que preciso que você deseje.
Seja aquilo que preciso que você seja.
A fantasia, quando ameaçada, pode se tornar cruel.
Mas existe outra possibilidade.
Muito mais difícil.
Talvez seja nesse ponto que alguma forma diferente de amor possa começar.
Quando sou capaz de olhar para aquela pessoa e perceber:
Você não é aquilo que imaginei.
Você não poderá me completar.
Você não poderá garantir que nunca sofrerei.
Não poderá eliminar minha solidão.
Não poderá desejar exatamente aquilo que desejo.
Existe uma parte de você à qual jamais terei acesso.
E existe uma parte de mim que você também nunca alcançará completamente.
Ainda assim...
eu quero estar aqui.
Talvez esse “ainda assim” seja uma das formas mais maduras do amor.
Não porque a fantasia desapareceu. Seria outra fantasia imaginar uma relação completamente livre de fantasias.
Continuaremos imaginando.
Projetando.
Desejando.
Interpretando olhares.
Inventando futuros.
Somos humanos.
Mas alguma coisa muda quando sabemos que existe um outro do outro lado da fantasia.
Alguém que não foi criado para desempenhar um papel em nossa história.
Alguém que possui sua própria falta.
Seu próprio desejo.
Seu próprio desconhecido.
Amar talvez seja suportar essa descoberta sem imediatamente fugir dela.
O paradoxo é bonito.
No início dizemos:
“Eu te amo porque encontrei em você aquilo que procurava.”
Talvez, depois de atravessarmos alguma coisa do amor, possamos dizer:
“Descobri que você não possui aquilo que eu procurava. E agora posso finalmente começar a conhecer você.”
É um amor menos mágico.
Mas talvez seja mais radical.
Porque já não exige que o outro cure aquilo que nenhuma pessoa poderia curar.
Não transforma o parceiro em remédio contra a falta.
Não exige que uma pessoa sustente para sempre o peso impossível de ser nossa resposta.
Ela pode finalmente descer desse lugar.
E talvez só então consigamos vê-la.
Não completamente.
Nunca completamente.
Há sempre alguma coisa que escapa.
Uma porta que permanece fechada.
Um pedaço de oceano depois da última escotilha.
E talvez seja melhor assim.
Porque se pudéssemos conhecer absolutamente o outro, possuir todos os seus pensamentos, antecipar cada gesto, eliminar cada mistério e preencher cada espaço, talvez não encontrássemos finalmente o amor.
Encontraríamos o fim do desejo.
O amor carrega uma fantasia impossível porque continuamos procurando no outro alguma coisa que nenhum outro pode nos entregar por inteiro.
Mas isso não torna o amor uma mentira.
Talvez torne justamente o contrário.
A fantasia nos leva até alguém.
O desejo abre a porta.
E então chega o momento mais difícil da travessia:
descobrir que atrás daquilo que imaginamos existe uma pessoa.
Imperfeita.
Incompleta.
Estrangeira.
Tão perdida diante do desejo quanto nós.
E talvez amar seja permanecer por algum tempo diante desse estranho — depois que parte da fantasia caiu — e ainda encontrar razões para estender a mão.
Não porque finalmente encontramos nossa metade.
Mas porque compreendemos que nunca fomos metade de nada.

