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Foto do escritor: Arthur Alexander
Arthur Alexander
30 de ago.
7 min de leitura

Há alguém deitado ao seu lado.

Você conhece o corpo, o cheiro, a maneira como respira quando adormece, a pequena mudança no rosto quando alguma coisa incomoda. Conhece histórias, medos, hábitos. Sabe o que essa pessoa gosta de comer, talvez saiba até o que ela responderá antes que responda.

E, ainda assim, existe alguém ali que você nunca conhecerá completamente.

Talvez o amor comece justamente nesse estranho território entre aquilo que sabemos sobre o outro e aquilo que inventamos sobre ele.

Porque nunca amamos apenas uma pessoa tal como ela é.

Amamos também aquilo que colocamos nela.

Um olhar pode carregar uma promessa que nunca foi feita. Um silêncio pode transformar-se em mistério. Um gesto banal pode ganhar uma importância desmedida. Uma mensagem de poucas palavras atravessa o dia inteiro e, quando chega a noite, já possui dezenas de significados que talvez jamais tenham passado pela cabeça de quem a escreveu.

O outro faz um pequeno movimento.

Nós construímos um oceano.

É nesse espaço que a fantasia começa a trabalhar.

Para Lacan, não encontramos o mundo de maneira neutra. Não olhamos para uma pessoa como quem observa um objeto perfeitamente iluminado sobre uma mesa. Chegamos ao encontro carregando nossa história, nossos primeiros amores, nossas perdas, nossos medos, os lugares que ocupamos diante do desejo daqueles que nos antecederam e, sobretudo, aquilo que nos falta.

Antes mesmo de sabermos quem o outro é, alguma coisa nele pode tocar essa falta.

E então acontece algo extraordinário.

Aquela pessoa deixa de ser apenas uma pessoa.

Passa a ocupar um lugar.

Talvez seja por isso que às vezes nos apaixonamos antes mesmo de conhecer verdadeiramente alguém.

Sabemos quase nada e sentimos quase tudo.

Algumas conversas, dois encontros, um determinado modo de sorrir, a voz, o cabelo caindo sobre o rosto, uma forma de olhar enquanto escuta alguma coisa. Elementos pequenos começam a girar dentro de nós como dados lançados sobre uma mesa.

E a partir deles construímos mundos.

O desejo é um excelente arquiteto.

Com muito pouco material consegue erguer cidades inteiras.

Lacan chamou de objeto a alguma coisa muito particular que participa desse processo. Não se trata simplesmente do objeto que desejamos. É aquilo que parece causar o desejo. Um detalhe difícil de explicar, algo que encontramos no outro e que parece apontar para alguma coisa que perdemos sem jamais saber exatamente quando possuímos.

Por isso é tão difícil responder à pergunta:

— Por que justamente essa pessoa?

Podemos fazer uma lista.

Ela é bonita. Inteligente. Engraçada. Delicada. Forte. Tem determinados valores. Gosta das mesmas coisas.

Mas conhecemos outras pessoas bonitas, inteligentes, engraçadas e delicadas.

Não é suficiente.

Há alguma coisa naquela.

Um resto.

Um jeito de olhar.

Uma voz.

Um cheiro.

Uma imperfeição.

Uma forma de atravessar uma sala.

Homem solitário com guarda-chuva em rua urbana à noite sob chuva forte, luzes e reflexos coloridos no asfalto molhado.
Um homem caminha solitariamente sob a chuva em uma rua iluminada por postes, refletindo as luzes da cidade nas poças d'água no asfalto.

Alguma coisa que escapa à explicação e, justamente porque escapa, começa a nos capturar.

O problema é que rapidamente confundimos aquilo que encontramos com aquilo que colocamos.

A pessoa real continua ali, é claro. Com sua história, seus próprios desejos, contradições, traumas, pequenas crueldades, generosidades inesperadas, dias de mau humor, desejos que não nos incluem e pensamentos aos quais nunca teremos acesso.

Mas sobre essa pessoa real começa a se sobrepor outra.

A pessoa da fantasia.

É nela que depositamos frases nunca ditas.

Intenções nunca confirmadas.

Futuros que nunca existiram.

Às vezes construímos até lembranças de acontecimentos que jamais aconteceram.

Imaginamos uma viagem.

Uma casa.

Uma manhã qualquer.

Uma conversa que teremos daqui a dez anos.

A maneira como seríamos abraçados depois de um dia difícil.

O que aquela pessoa faria se estivéssemos doentes.

Como envelheceríamos juntos.

Nada disso aconteceu.

E, contudo, emocionalmente alguma coisa já aconteceu.

O corpo responde a uma história que só existe dentro de nós.

Talvez seja uma das coisas mais belas e mais perigosas do amor.

Podemos sentir saudade de um futuro que nunca existiu.

É aqui que começamos a compreender por que o amor carrega uma fantasia impossível.

O impossível não significa que amar seja impossível.

Significa outra coisa.

A fantasia secreta de muitos amores é a de que, em algum ponto, o outro conseguirá finalmente nos completar.

Não pensamos necessariamente dessa maneira.

Ninguém precisa caminhar pela casa dizendo:

— Espero que esta pessoa resolva minha falta estrutural.

A fantasia é mais elegante.

Ela diz:

Finalmente alguém me vê.

Finalmente alguém me compreende.

Com essa pessoa poderei descansar.

Ela nunca me abandonará.

Ele sabe quem eu sou.

Agora encontrei aquilo que procurei durante toda a vida.

Talvez uma das frases mais perigosas do amor seja justamente uma das mais bonitas:

“Você era aquilo que faltava em mim.”

Porque o outro pode nos oferecer amor, companhia, cuidado, erotismo, palavras, presença, projetos, filhos, viagens, noites inesquecíveis.

Pode transformar profundamente nossa vida.

Mas há uma coisa que ele não pode fazer.

Eliminar nossa falta.

Porque essa falta não é um defeito produzido pela ausência daquela pessoa.

Para Lacan, ela participa da própria constituição do sujeito.

Somos seres atravessados pela linguagem, condenados de alguma maneira a procurar palavras para experiências que nunca cabem inteiramente nelas. Desejamos alguma coisa e, quando finalmente a conseguimos, descobrimos que o desejo já começou a se deslocar novamente.

Há sempre um resto.

Uma pequena distância entre aquilo que imaginamos encontrar e aquilo que encontramos.

É por isso que Lacan chega à sua famosa formulação de que “não há relação sexual”.

A frase parece absurda se tomada literalmente.

Lacan não está dizendo que as pessoas não fazem sexo ou não constroem relações.

Está dizendo que não existe uma fórmula capaz de fazer dois sujeitos se encaixarem perfeitamente, como duas peças que teriam sido produzidas uma para a outra.

Não existe complementaridade completa.

Nenhum homem contém aquilo que completaria definitivamente uma mulher.

Nenhuma mulher possui aquilo que completaria definitivamente um homem.

Nenhum sujeito possui a peça secreta capaz de fechar o outro.

Dois amantes podem se abraçar durante a madrugada inteira.

E ainda serão dois.

Talvez aí esteja a tragédia.

Mas talvez esteja também a beleza.

Porque durante algum tempo a paixão tenta negar essa distância.

Os amantes querem entrar um no outro.

Querem saber tudo.

Querem tocar tudo.

Querem que o outro diga aquilo que esperavam ouvir antes mesmo de saberem que esperavam.

Querem ocupar seus pensamentos.

Querem ser insubstituíveis.

Querem eliminar qualquer distância entre dois corpos.

Por alguns instantes, especialmente no início de uma paixão, isso quase parece possível.

O mundo muda de temperatura.

As músicas ganham significado.

As ruas parecem diferentes.

Um restaurante deixa de ser apenas um restaurante.

Uma cadeira vazia pode produzir angústia.

Um cheiro atravessando um corredor pode desencadear uma tempestade.

O tempo se comporta de maneira estranha: minutos juntos desaparecem e algumas horas separados parecem dias.

A fantasia começa a deformar o espaço.

Até que o outro faz alguma coisa inesperada.

Não responde como deveria.

Deseja alguma coisa que não desejamos.

Escolhe ficar sozinho.

Não percebe aquilo que para nós parecia evidente.

Não corresponde à personagem que silenciosamente escrevemos para ele.

Então surge uma frase muito comum nas separações:

— Você mudou.

Às vezes mudou.

Mas outras vezes aconteceu algo mais doloroso.

O outro começou a escapar da nossa fantasia.

Descobrimos que aquela pessoa não era exatamente quem imaginávamos.

Talvez nunca tenha sido.

E nesse momento alguma coisa decisiva acontece com o amor.

Há quem tente obrigar o outro a voltar para o personagem.

“Você não era assim.”

“Você deveria saber.”

“Se me amasse, faria isso.”

“Eu achei que você fosse diferente.”

É uma tentativa desesperada de restaurar o roteiro.

Faça novamente o papel que escrevi para você.

Deseje aquilo que preciso que você deseje.

Seja aquilo que preciso que você seja.

A fantasia, quando ameaçada, pode se tornar cruel.

Mas existe outra possibilidade.

Muito mais difícil.

Talvez seja nesse ponto que alguma forma diferente de amor possa começar.

Quando sou capaz de olhar para aquela pessoa e perceber:

Você não é aquilo que imaginei.

Você não poderá me completar.

Você não poderá garantir que nunca sofrerei.

Não poderá eliminar minha solidão.

Não poderá desejar exatamente aquilo que desejo.

Existe uma parte de você à qual jamais terei acesso.

E existe uma parte de mim que você também nunca alcançará completamente.

Ainda assim...

eu quero estar aqui.

Talvez esse “ainda assim” seja uma das formas mais maduras do amor.

Não porque a fantasia desapareceu. Seria outra fantasia imaginar uma relação completamente livre de fantasias.

Continuaremos imaginando.

Projetando.

Desejando.

Interpretando olhares.

Inventando futuros.

Somos humanos.

Mas alguma coisa muda quando sabemos que existe um outro do outro lado da fantasia.

Alguém que não foi criado para desempenhar um papel em nossa história.

Alguém que possui sua própria falta.

Seu próprio desejo.

Seu próprio desconhecido.

Amar talvez seja suportar essa descoberta sem imediatamente fugir dela.

O paradoxo é bonito.

No início dizemos:

“Eu te amo porque encontrei em você aquilo que procurava.”

Talvez, depois de atravessarmos alguma coisa do amor, possamos dizer:

“Descobri que você não possui aquilo que eu procurava. E agora posso finalmente começar a conhecer você.”

É um amor menos mágico.

Mas talvez seja mais radical.

Porque já não exige que o outro cure aquilo que nenhuma pessoa poderia curar.

Não transforma o parceiro em remédio contra a falta.

Não exige que uma pessoa sustente para sempre o peso impossível de ser nossa resposta.

Ela pode finalmente descer desse lugar.

E talvez só então consigamos vê-la.

Não completamente.

Nunca completamente.

Há sempre alguma coisa que escapa.

Uma porta que permanece fechada.

Um pedaço de oceano depois da última escotilha.

E talvez seja melhor assim.

Porque se pudéssemos conhecer absolutamente o outro, possuir todos os seus pensamentos, antecipar cada gesto, eliminar cada mistério e preencher cada espaço, talvez não encontrássemos finalmente o amor.

Encontraríamos o fim do desejo.

O amor carrega uma fantasia impossível porque continuamos procurando no outro alguma coisa que nenhum outro pode nos entregar por inteiro.

Mas isso não torna o amor uma mentira.

Talvez torne justamente o contrário.

A fantasia nos leva até alguém.

O desejo abre a porta.

E então chega o momento mais difícil da travessia:

descobrir que atrás daquilo que imaginamos existe uma pessoa.

Imperfeita.

Incompleta.

Estrangeira.

Tão perdida diante do desejo quanto nós.

E talvez amar seja permanecer por algum tempo diante desse estranho — depois que parte da fantasia caiu — e ainda encontrar razões para estender a mão.

Não porque finalmente encontramos nossa metade.

Mas porque compreendemos que nunca fomos metade de nada.

 
 
 

Vício e psicanálise


Há algo de profundamente paradoxal no vício: a pessoa sabe que aquilo lhe faz mal e, ainda assim, retorna. Promete que será a última vez, estabelece limites, muda de ambiente, tenta controlar-se — e, em algum momento, encontra-se novamente diante do mesmo objeto. A droga, o álcool, o jogo, a comida, o sexo, a compra, a tela. O objeto pode mudar, mas alguma coisa insiste.

É justamente essa insistência que interessa à psicanálise.

Freud percebeu que o ser humano não busca apenas aquilo que lhe proporciona prazer. Há em nós uma tendência mais estranha: podemos retornar justamente aos lugares em que sofremos. Repetimos relações, escolhas, situações e modos de satisfação que conscientemente gostaríamos de abandonar.

O vício torna essa contradição particularmente visível.

“Eu sei que isso me faz mal.”

“Eu não quero continuar.”

E, mesmo assim:

“Eu volto.”

Se bastasse conhecer as consequências de um comportamento para abandoná-lo, grande parte dos vícios desapareceria diante da primeira advertência médica, da primeira perda financeira ou do primeiro conflito familiar.

Mas não é assim que acontece.

Porque o sujeito não se relaciona apenas com aquilo que consome. Relaciona-se também com a função que aquele objeto adquiriu em sua vida.

Uma pessoa bebe para conseguir estar entre outras pessoas.

Outra bebe quando chega em casa e encontra o silêncio.

Alguém aposta justamente quando se sente fracassado.

Outro compra quando se sente vazio.

Uma pessoa procura compulsivamente sexo depois de experimentar abandono.

Outra passa horas diante do celular porque qualquer intervalo sem estímulo faz surgir pensamentos que prefere não encontrar.

A droga pode suspender uma angústia.

O álcool pode silenciar, por algumas horas, uma cobrança interna impossível de satisfazer.

O jogo pode produzir intensidade onde a vida parece ter perdido a cor.

A comida pode ocupar o lugar de um consolo.

A tela pode impedir que o silêncio apareça.

O objeto não entra por acaso naquela vida.

Ele encontra um lugar.

Antes de ser um problema, muitas vezes foi uma solução

Esse é um ponto fundamental.

O objeto do vício não é apenas aquilo que destrói.

Muitas vezes, antes de começar a destruir, ele resolveu alguma coisa.

Talvez tenha permitido dormir.

Talvez tenha permitido esquecer.

Talvez tenha tornado possível suportar uma solidão.

Talvez tenha diminuído uma angústia.

Talvez tenha criado alguns minutos em que o sujeito não precisava pensar em si mesmo.

Talvez tenha permitido sentir alguma coisa quando tudo parecia anestesiado.

É uma solução cara, precária e, muitas vezes, devastadora.

Mas ainda assim pode ter funcionado como solução.

Por isso uma pergunta clínica importante não é apenas:

“Do que essa pessoa é dependente?”

Mas:

“Para que isso se tornou necessário?”

Essa mudança de pergunta transforma profundamente a maneira de compreender o vício.

Prazer não é a mesma coisa que gozo

Lacan permite avançar um pouco mais quando distingue prazer e gozo.

O prazer tende à diminuição da tensão. Procuramos aquilo que nos faz bem e evitamos aquilo que nos causa sofrimento.

Mas o ser humano não funciona apenas dessa maneira.

Existem experiências às quais retornamos apesar do sofrimento que provocam.

É aí que aparece a noção de gozo.

Gozo não significa simplesmente um prazer muito intenso. É uma forma paradoxal de satisfação que pode incluir dor, excesso, desgaste e repetição.

É possível sofrer com alguma coisa e, ainda assim, retirar dela uma satisfação que não conseguimos simplesmente abandonar.

Isso ajuda a compreender uma frase tão frequente:

“Eu não quero mais isso, mas parece que alguma coisa em mim quer.”

Não significa que exista outra pessoa dentro do sujeito.

Significa que nosso desejo e nossas formas de satisfação não coincidem inteiramente com aquilo que conscientemente decidimos querer.

O sujeito é dividido.

E o vício mostra essa divisão quase sem disfarce.

O objeto que promete demais

Lacan coloca a falta no centro da experiência humana.

Isso pode parecer pessimista à primeira vista, mas não é.

A falta não significa simplesmente que alguma coisa deu errado.

É justamente porque não somos completos que desejamos.

Desejamos pessoas.

Ideias.

Projetos.

Reconhecimento.

Amor.

Conhecimento.

Experiências.

O desejo circula porque nenhum objeto consegue encerrá-lo definitivamente.

O problema começa quando algum objeto passa a oferecer uma promessa diferente:

“Comigo, você não precisará mais sentir essa falta.”

Só mais uma dose.

Só mais uma aposta.

Só mais uma compra.

Só mais um encontro.

Só mais um vídeo.

Só mais alguns minutos.

Existe sempre a promessa de uma satisfação finalmente completa.

Mas ela nunca chega.

E justamente porque não chega, o circuito precisa recomeçar.

Se o objeto satisfizesse definitivamente, a repetição terminaria.

O vício vive dessa pequena diferença entre aquilo que o objeto promete e aquilo que consegue oferecer.

Por alguns instantes, algo é suspenso.

A angústia diminui.

O silêncio desaparece.

A solidão recua.

O corpo muda.

O pensamento para.

E então tudo retorna.

É preciso novamente o objeto.

Uma satisfação que tenta dispensar o Outro

Há outra dimensão particularmente interessante em Lacan.

Grande parte dos nossos desejos passa pelo Outro.

Precisamos falar.

Esperar.

Pedir.

Seduzir.

Negociar.

Suportar uma recusa.

Aceitar que outra pessoa não existe simplesmente para satisfazer nossas necessidades.

O amor é trabalhoso justamente porque depende de outro sujeito.

Uma relação pode frustrar.

Uma pessoa pode ir embora.

O outro pode dizer não.

O objeto do vício oferece uma alternativa tentadora.

Ele está ali.

A garrafa não pergunta.

A substância não exige reciprocidade.

A aposta oferece imediatamente uma nova rodada.

A compra pode ser realizada em segundos.

O vídeo seguinte começa automaticamente.

Há nesses objetos a possibilidade de construir um circuito de satisfação que tenta reduzir a dependência da imprevisibilidade do outro.

Em lugar de uma relação, um consumo.

Em lugar de uma espera, uma descarga.

Em lugar de uma pergunta, uma resposta pronta.

É como se o sujeito tentasse organizar um pequeno circuito no qual pudesse administrar sozinho seu próprio gozo.

Mas o preço dessa autonomia pode ser enorme.

Porque quanto mais eficiente se torna esse circuito, menos espaço resta para o desejo.

Quando a libido começa a girar em torno de um único objeto

Freud nos ajuda novamente aqui.

Investimos libido no mundo.

Em pessoas.

Trabalho.

Amizades.

Amores.

Projetos.

Ideias.

Corpo.

Criação.

Curiosidade.

Podemos chamar esse movimento de investimento libidinal ou catexia.

No vício, progressivamente, uma quantidade cada vez maior desse investimento pode começar a se concentrar no circuito do objeto.

O sujeito pensa nele.

Espera por ele.

Organiza horários em torno dele.

Esconde seu uso.

Planeja quando poderá encontrá-lo novamente.

Protege o acesso.

Sofre quando ele falta.

Experimenta alívio quando ele retorna.

O objeto vai sendo fortemente investido.

E algo curioso acontece simultaneamente.

O restante do mundo pode começar a empobrecer.

Relações perdem interesse.

Projetos são abandonados.

Atividades antes prazerosas tornam-se indiferentes.

O futuro encolhe.

O campo do desejo diminui.

A vida passa a girar ao redor de uma satisfação cada vez mais estreita.

É por isso que tratar um vício não significa apenas retirar um objeto.

Existe também uma questão sobre para onde poderá voltar a circular a libido.

O que aparece quando o objeto falta?

Essa talvez seja uma das perguntas mais importantes.

Se retiramos o objeto, o que aparece?

Angústia?

Solidão?

Raiva?

Uma perda?

Uma sensação de vazio?

Um corpo difícil de suportar?

Pensamentos incessantes?

Uma cobrança impossível?

Uma lembrança?

Uma sensação de não saber o que fazer consigo mesmo?

Às vezes, abandonar o objeto significa encontrar justamente aquilo que ele vinha mantendo à distância.

E é por isso que parar pode ser tão difícil.

Não se trata apenas de perder uma fonte de prazer.

Pode significar perder uma solução.

Nesse momento, a clínica precisa evitar uma posição moralista.

Não adianta simplesmente dizer:

“Você precisa parar.”

O próprio sujeito frequentemente já sabe disso.

É necessário perguntar:

O que precisará ser construído para que esse objeto deixe de ser tão necessário?

O vício também fala quando parece apenas repetir

Na análise, começamos a investigar a história daquele circuito.

Quando começou?

O que estava acontecendo naquele período?

O que costuma acontecer imediatamente antes do impulso?

E depois?

Que sentimento aparece?

Com quem a pessoa estava?

O que havia acontecido naquele dia?

O que muda quando o objeto está disponível?

E o que aparece quando ele falta?

Aos poucos, aquilo que parecia apenas uma vontade incontrolável começa a adquirir relações.

Uma bebida pode começar a aparecer sempre depois de determinada sensação de fracasso.

Uma compulsão pode acompanhar experiências de rejeição.

O jogo pode surgir quando o sujeito sente que sua vida perdeu possibilidades.

A comida pode responder a uma solidão específica.

O sexo compulsivo pode aparecer justamente depois de situações em que o sujeito teme ter sido abandonado.

Não estamos procurando uma fórmula universal.

Estamos procurando a lógica singular da repetição.

O que parecia simplesmente acontecer começa a possuir uma história.

E aquilo que ganha história pode começar a ser elaborado.

Da repetição à palavra

Talvez um dos movimentos mais importantes de uma análise aconteça quando algo que precisava ser repetido começa a poder ser falado.

Antes:

“Isso simplesmente acontece comigo.”

Depois, talvez:

“Percebo que procuro isso sempre quando alguma coisa acontece.”

Mais adiante:

“Começo a entender o que estou tentando não sentir.”

Não significa que compreender racionalmente resolva automaticamente o vício.

O inconsciente não desaparece diante de uma explicação.

Mas alguma coisa muda quando o sujeito começa a reconhecer sua posição dentro do circuito.

A repetição deixa de ser completamente muda.

Surge uma pequena distância entre o impulso e o ato.

E nessa distância pode surgir algo precioso:

uma possibilidade de escolha.

Nenhum objeto nos completa

A sociedade contemporânea talvez torne esse problema ainda mais difícil.

Somos cercados por objetos que prometem satisfação imediata.

Compre agora.

Assista agora.

Peça agora.

Role novamente.

Aposte novamente.

Encontre alguém agora.

O mercado aprendeu muito bem a explorar uma característica fundamental do desejo humano:

a satisfação nunca é definitiva.

Sempre pode existir outro produto.

Outro vídeo.

Outra experiência.

Outro corpo.

Outra aposta.

Outra promessa.

A falta, que poderia colocar o desejo em movimento, transforma-se em oportunidade permanente de consumo.

Talvez por isso uma das experiências mais difíceis hoje seja simplesmente suportar um pouco de vazio.

Um intervalo.

Uma espera.

Um silêncio.

Não imediatamente preenchê-lo.

Porque é justamente nesse intervalo que alguma coisa do desejo pode aparecer.


Praia vazia sob céu tempestuoso; uma pessoa caminha na areia molhada, deixando pegadas, ao lado de falésias e mar cinza.
Solitude na praia nublada: uma figura solitária caminha ao longo da costa, deixando pegadas na areia úmida sob um céu cinzento e ameaçador.

O tratamento não consiste apenas em retirar

Tratar um vício não significa simplesmente arrancar o objeto da vida de alguém.

Em muitas situações, interromper o consumo é absolutamente necessário — às vezes com urgência e com acompanhamento médico.

Mas do ponto de vista psíquico permanece outra questão.

O que existirá onde antes estava o objeto?

Que relações poderão receber novamente investimento?

Que projetos poderão reaparecer?

Que interesses foram abandonados?

Que dores precisam ser elaboradas?

Que desejos ficaram reduzidos ao silêncio?

Que formas de satisfação podem ser construídas sem aprisionar toda a vida em um único circuito?

Talvez o tratamento também consista em permitir que o mundo volte a se ampliar.

A libido que se concentrou quase inteiramente no objeto pode encontrar outros destinos.

A vida pode novamente conter pessoas, projetos, curiosidade, criação e desejo.

Não porque a falta tenha desaparecido.

Mas justamente porque o sujeito já não precisa eliminá-la o tempo inteiro.

Da necessidade do objeto à possibilidade do desejo

A psicanálise não promete uma vida sem angústia.

Nem uma existência sem falta.

Muito menos uma satisfação permanente.

Talvez essa seja justamente sua posição mais radical.

Não existe objeto capaz de completar definitivamente um sujeito.

Mas isso não é uma condenação.

É o que torna possível continuar desejando.

Quando um único objeto se apresenta como resposta para tudo, a vida começa a diminuir ao redor dele.

Quando essa resposta deixa de ser absoluta, alguma coisa pode voltar a circular.

Outros vínculos.

Outros investimentos.

Outras perguntas.

Outros desejos.

Por isso, talvez a pergunta fundamental diante do vício não seja:

“Por que você não consegue parar?”

Mas:

“O que esse objeto está fazendo por você que, até agora, nenhuma outra coisa conseguiu fazer?”

Essa pergunta não absolve o sujeito de sua responsabilidade.

Também não romantiza o sofrimento.

Ela simplesmente abre uma possibilidade clínica.

Porque aquilo que hoje parece indispensável talvez tenha se tornado indispensável em algum momento da história.

E aquilo que adquiriu uma função pode, com trabalho, perder parte dessa necessidade quando outras formas de viver se tornam possíveis.

Há momentos em que o vício parece dizer:

“Sem isso, eu não sei como continuar.”

Talvez o trabalho da análise comece exatamente aí.

Não arrancando imediatamente uma resposta.

Mas ajudando o sujeito a construir outras.

Até que, pouco a pouco, alguma coisa possa mudar:

“Isso não precisa mais ser a única maneira que encontrei de continuar.”

Nos casos de dependência química importante, risco de abstinência, intoxicação recorrente ou grave comprometimento físico e social, a análise deve integrar-se ao acompanhamento médico e multiprofissional. A especificidade da psicanálise está em acrescentar uma pergunta que nenhum protocolo, sozinho, pode responder: por que esse objeto adquiriu justamente essa função na história singular desse sujeito?

 
 
 

Viver é, em alguma medida, ser continuamente desorganizado pelo mundo.

Criamos vínculos, construímos projetos, fazemos planos, investimos pessoas, lugares, ideias e futuros com uma enorme quantidade de energia afetiva. Durante algum tempo, essas coisas ajudam a organizar nossa existência. Sabemos quem somos porque sabemos quem amamos, onde pertencemos, o que esperamos e em direção a que caminhamos.

Mas a vida não preserva necessariamente aquilo que organiza nossa história.

Pessoas morrem. Relações terminam. Corpos adoecem. Projetos fracassam. Filhos crescem. Lugares desaparecem. Algumas certezas que pareciam permanentes deixam simplesmente de existir.

E então a vida exige algo extraordinário da psique: reorganizar-se sem aquilo que antes a sustentava.

Talvez seja possível pensar a existência justamente nesse movimento contínuo entre organização e desorganização.

A vida contra a entropia

Na física, a entropia está associada à tendência dos sistemas para estados de maior dispersão e desordem. A vida é um fenômeno curioso porque consegue, localmente, manter estruturas altamente organizadas. Um organismo precisa gastar energia continuamente para preservar sua forma, reparar danos, manter diferenças internas e continuar existindo.

Um corpo vivo nunca está simplesmente pronto.

Ele trabalha o tempo inteiro para continuar sendo corpo.

A comparação com a vida psíquica precisa ser feita com cuidado. A psique não é literalmente um sistema termodinâmico, e seria um erro transformar conceitos da física em equivalentes psicológicos. Mas a metáfora é fértil.

Também psiquicamente parece existir um trabalho permanente de organização.

Nossa mente tenta produzir continuidade onde a experiência produz rupturas. Constrói narrativas, cria sentidos, estabelece vínculos, seleciona lembranças, esquece outras, fantasia futuros e transforma acontecimentos dispersos em uma história relativamente coerente que chamamos de “minha vida”.

Talvez aquilo que chamamos de identidade seja menos uma estrutura fixa do que esse trabalho contínuo de organização.

E poucas coisas revelam isso de maneira tão clara quanto uma perda.

Libido: a energia com que investimos o mundo

Freud chamou de libido a energia psíquica relacionada às pulsões e aos investimentos amorosos.

O termo costuma ser reduzido à sexualidade, mas, em psicanálise, seu sentido é muito mais amplo. Investimos libido em pessoas, relações, ideias, projetos e ideais.

Quando alguém ama, não apenas reconhece que o outro existe.

Ele o investe.

Uma parte da vida psíquica passa a circular naquele vínculo.

Esperamos aquela pessoa. Imaginamos conversas. Construímos futuros. Desenvolvemos hábitos. Organizamos nosso cotidiano levando sua existência em consideração.

Freud utilizou o termo Besetzung, tradicionalmente traduzido como catexia, para falar desse investimento de energia psíquica em uma representação, objeto ou ideia.

Podemos imaginar a catexia como uma espécie de ligação.

A libido encontra um objeto e se liga a ele.

Quanto mais importante esse objeto se torna, mais intensamente ele participa da organização da vida psíquica.

É exatamente por isso que perder dói.

Pessoa caminha por calçada molhada ao pôr do sol, com skyline de Nova York e céu dourado ao fundo.
Durante uma manhã tranquila, uma pessoa caminha por uma rua vazia de Nova York, enquanto o sol nasce, banhando a cidade com uma luz dourada.

Quando o objeto desaparece, o investimento permanece

Há algo profundamente estranho na experiência da perda.

O objeto desaparece da realidade, mas não desaparece imediatamente da psique.

Uma pessoa pode morrer, mas continuamos esperando ouvir sua voz.

Uma relação pode terminar, mas continuamos imaginando conversas que nunca acontecerão.

Uma casa pode ser vendida, mas continuamos entrando mentalmente em seus cômodos.

A realidade diz:

“Isso não está mais aqui.”

Mas o investimento psíquico responde:

“Para mim, ainda está.”

É nesse intervalo que aparece parte da experiência dolorosa do luto.

A libido permanece investida em um objeto que já não pode responder a esse investimento da mesma maneira.

Freud percebeu isso com enorme clareza em seu texto Luto e Melancolia.

O trabalho do luto consiste, entre outras coisas, em um lento processo de desinvestimento.

A libido precisa retirar-se, progressivamente, das ligações que mantinham o objeto perdido presente na vida psíquica.

Mas isso não acontece de uma vez.

Cada lembrança, cada expectativa e cada fragmento de vida ligado ao objeto precisa, de alguma maneira, ser reencontrado.

Por isso o luto é um trabalho.

E por isso ele cansa tanto.

A dor é o preço da ligação

J.-D. Nasio desenvolveu uma formulação particularmente interessante sobre a dor psíquica.

Quando perdemos alguém profundamente investido, não ocorre simplesmente um desaparecimento da energia ligada a essa pessoa.

Pode acontecer justamente o contrário.

As representações do objeto perdido tornam-se intensamente investidas.

Pensamos mais naquela pessoa.

Lembramos mais.

Sonhamos.

Recriamos situações.

Voltamos mentalmente ao último encontro, à última frase, ao último gesto.

Há uma espécie de hipercatexia das representações do objeto perdido.

O objeto desapareceu do mundo exterior, mas torna-se extraordinariamente presente no mundo interior.

Isso ajuda a compreender uma das características mais paradoxais da dor.

Aquilo que perdemos parece estar, ao mesmo tempo, mais presente do que nunca.

A dor seria então, em parte, o resultado dessa enorme concentração de investimento em algo que já não possui uma presença correspondente na realidade.

A libido perdeu seu objeto, mas ainda não encontrou outro destino.

A dor pode buscar a cura?

Precisamos ser cuidadosos aqui.

A dor não cura automaticamente.

Existem sofrimentos que se repetem durante décadas sem produzir elaboração alguma.

Uma pessoa pode permanecer inteiramente capturada por uma perda.

Pode repetir incessantemente o acontecimento.

Pode transformar o sofrimento em identidade.

Pode impedir novos investimentos.

Portanto, sofrer não significa necessariamente elaborar.

Mas a dor pode fazer parte de um processo de cura quando consegue entrar em um trabalho psíquico de transformação.

Talvez possamos dizer que a dor sinaliza uma tarefa.

Algo foi profundamente desorganizado.

Agora o aparelho psíquico precisa construir uma nova forma de existir.

Nesse sentido, a cura não é apagar o que aconteceu.

É conseguir reorganizar a vida sem precisar negar aquilo que foi perdido.

O retorno da libido

Quando o trabalho de luto avança, ocorre algo fundamental.

A libido começa a se desprender do objeto perdido.

Não significa esquecer.

Também não significa deixar de amar.

Significa que o objeto deixa de exigir toda a energia psíquica disponível.

Uma lembrança pode continuar existindo sem paralisar a vida.

Uma pessoa pode continuar sendo amada sem precisar permanecer presente em todos os pensamentos.

Aquilo que foi perdido passa a ocupar outro lugar.

A libido torna-se então novamente disponível.

Ela pode ser reinvestida.

Novos vínculos.

Novos projetos.

Novos interesses.

Novas pessoas.

Novas formas de desejar.

Talvez seja esse um dos sinais mais importantes de que alguma elaboração aconteceu:

a vida volta a despertar curiosidade.

A libido recupera futuro.

O sintoma como tentativa de organização

Essa perspectiva também permite olhar para os sintomas de outra maneira.

Costumamos pensar o sintoma apenas como algo que deu errado.

Ansiedade.

Compulsões.

Fobias.

Repetições.

Inibições.

Mas Freud descobriu algo desconcertante: o sintoma também é uma solução.

Uma solução custosa, frequentemente dolorosa, mas ainda assim uma tentativa de organização.

Diante de conflitos que o sujeito não consegue resolver diretamente, o aparelho psíquico constrói compromissos.

O sintoma permite manter determinadas forças afastadas enquanto outras conseguem continuar funcionando.

Podemos pensar nele como uma pequena arquitetura construída para evitar um colapso maior.

É por isso que simplesmente retirar um sintoma nem sempre resolve o sofrimento.

Às vezes, retiramos a solução antes que exista outra maneira de organizar aquilo que ela sustentava.

A análise tenta compreender:

o que esse sintoma está tentando resolver?

E o inconsciente?

Foi aqui que surgiu uma hipótese particularmente interessante.

Talvez o inconsciente fosse o lugar onde despejamos a “entropia” que não conseguimos organizar conscientemente.

É uma imagem sedutora.

Mas eu a modificaria.

O inconsciente não parece ser um depósito de desordem.

Ele é, na verdade, extraordinariamente ativo.

Sonhos associam fragmentos aparentemente desconexos.

Sintomas ligam experiências distantes no tempo.

Lapsos aproximam palavras que conscientemente manteríamos separadas.

Memórias infantis reaparecem transformadas em situações adultas.

Há deslocamentos, condensações, substituições e repetições.

O inconsciente trabalha.

Talvez pudéssemos formular assim:

O inconsciente é um dos lugares onde aquilo que não pôde ser integrado à nossa narrativa consciente continua tentando encontrar alguma forma de organização.

Não é a entropia.

É parte do trabalho realizado diante dela.

O resto que retorna

Mas há sempre alguma coisa que não conseguimos integrar completamente.

Experiências que não encontram palavras.

Afetos que não sabemos localizar.

Contradições que preferimos não reconhecer.

Desejos incompatíveis com a imagem que construímos de nós mesmos.

Uma parte disso é recalcada.

Mas o recalcado não desaparece.

Ele retorna.

Em sonhos.

Sintomas.

Escolhas.

Relacionamentos.

Repetições.

Talvez seja possível pensar que aquilo que não conseguimos organizar simbolicamente reaparece tentando ser novamente trabalhado.

Por isso repetimos.

Não necessariamente porque desejamos conscientemente sofrer outra vez, mas porque alguma coisa da experiência permaneceu sem elaboração suficiente.

A repetição seria, nesse sentido, uma nova tentativa de resolver uma antiga equação.

A análise como criação de novas ligações

Uma das palavras mais interessantes na teoria freudiana é ligação.

Há experiências que chegam ao psiquismo com intensidade demais.

Precisam ser ligadas a representações, palavras, lembranças e associações para que possam ser elaboradas.

É exatamente isso que muitas vezes acontece durante uma análise.

Uma pessoa chega dizendo:

“Tenho ansiedade.”

Depois de algum tempo, a ansiedade passa a ter uma história.

Aparecem relações.

Perdas.

Expectativas.

Medos.

Desejos.

Frases ouvidas na infância.

Ideais impossíveis.

Situações que aparentemente não tinham relação começam a produzir ligações.

O que antes era apenas sensação começa a ganhar representação.

O que era corpo encontra palavras.

O que era repetição ganha história.

E o que ganha história pode, em alguma medida, deixar de precisar repetir-se exatamente da mesma maneira.

Nesse sentido, poderíamos imaginar a análise como um trabalho de reorganização psíquica.

Não porque o analista organize a vida do paciente.

Mas porque a fala permite que novas ligações sejam construídas.

A psique como estratégia contra a desorganização

Talvez então possamos retornar à metáfora inicial.

A vida biológica precisa gastar energia continuamente para preservar sua organização diante da tendência à dispersão.

A vida psíquica também parece trabalhar incessantemente para construir alguma continuidade diante daquilo que a experiência rompe.

Perdemos.

Sofremos.

Recalcamos.

Sonhamos.

Repetimos.

Falamos.

Elaboramos.

Investimos novamente.

Talvez possamos pensar a psique como uma das estratégias que a vida encontrou para continuar existindo depois de ser transformada pelo mundo.

Ela não elimina a desordem.

Ela trabalha com ela.

Transforma parte dela em memória.

Outra parte em fantasia.

Outra em sintoma.

Outra em narrativa.

E, quando possível, transforma alguma coisa em desejo.

O que a vida tira e o que ela devolve

Toda perda introduz uma espécie de ruptura na organização que havíamos construído.

Mas talvez a capacidade humana mais extraordinária esteja justamente aí.

Não somos apenas capazes de conservar.

Somos capazes de reorganizar.

Podemos perder um objeto sem perder definitivamente a capacidade de investir.

Podemos ser transformados por uma experiência sem permanecer eternamente presos a ela.

Podemos carregar nossos mortos sem precisar morrer junto com eles.

Podemos guardar aquilo que amamos e, ao mesmo tempo, voltar a amar.

É possível que a verdadeira função do luto não seja nos ensinar a esquecer.

Talvez seja ensinar à libido que ela pode sobreviver à perda de seus objetos.

A pessoa que emerge de um luto nunca é exatamente aquela que existia antes.

Algo foi perdido.

Algo permanece.

Algo precisou ser reconstruído.

E alguma coisa nova começa lentamente a receber investimento.

Nesse ponto, a dor talvez tenha realizado parte de seu trabalho.

Não porque tenha desaparecido completamente.

Mas porque deixou de ocupar todo o espaço disponível.

A vida conseguiu novamente criar ligações.

A libido voltou a circular.

O desejo recuperou algum futuro.

E talvez seja justamente isso que chamamos, quando não encontramos palavra melhor, de cura.

 
 
 
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