O vício e aquilo que insiste: uma leitura psicanalítica da repetição
- Arthur Alexander

- há 10 horas
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Vício e psicanálise
Há algo de profundamente paradoxal no vício: a pessoa sabe que aquilo lhe faz mal e, ainda assim, retorna. Promete que será a última vez, estabelece limites, muda de ambiente, tenta controlar-se — e, em algum momento, encontra-se novamente diante do mesmo objeto. A droga, o álcool, o jogo, a comida, o sexo, a compra, a tela. O objeto pode mudar, mas alguma coisa insiste.
É justamente essa insistência que interessa à psicanálise.
Freud percebeu que o ser humano não busca apenas aquilo que lhe proporciona prazer. Há em nós uma tendência mais estranha: podemos retornar justamente aos lugares em que sofremos. Repetimos relações, escolhas, situações e modos de satisfação que conscientemente gostaríamos de abandonar.
O vício torna essa contradição particularmente visível.
“Eu sei que isso me faz mal.”
“Eu não quero continuar.”
E, mesmo assim:
“Eu volto.”
Se bastasse conhecer as consequências de um comportamento para abandoná-lo, grande parte dos vícios desapareceria diante da primeira advertência médica, da primeira perda financeira ou do primeiro conflito familiar.
Mas não é assim que acontece.
Porque o sujeito não se relaciona apenas com aquilo que consome. Relaciona-se também com a função que aquele objeto adquiriu em sua vida.
Uma pessoa bebe para conseguir estar entre outras pessoas.
Outra bebe quando chega em casa e encontra o silêncio.
Alguém aposta justamente quando se sente fracassado.
Outro compra quando se sente vazio.
Uma pessoa procura compulsivamente sexo depois de experimentar abandono.
Outra passa horas diante do celular porque qualquer intervalo sem estímulo faz surgir pensamentos que prefere não encontrar.
A droga pode suspender uma angústia.
O álcool pode silenciar, por algumas horas, uma cobrança interna impossível de satisfazer.
O jogo pode produzir intensidade onde a vida parece ter perdido a cor.
A comida pode ocupar o lugar de um consolo.
A tela pode impedir que o silêncio apareça.
O objeto não entra por acaso naquela vida.
Ele encontra um lugar.
Antes de ser um problema, muitas vezes foi uma solução
Esse é um ponto fundamental.
O objeto do vício não é apenas aquilo que destrói.
Muitas vezes, antes de começar a destruir, ele resolveu alguma coisa.
Talvez tenha permitido dormir.
Talvez tenha permitido esquecer.
Talvez tenha tornado possível suportar uma solidão.
Talvez tenha diminuído uma angústia.
Talvez tenha criado alguns minutos em que o sujeito não precisava pensar em si mesmo.
Talvez tenha permitido sentir alguma coisa quando tudo parecia anestesiado.
É uma solução cara, precária e, muitas vezes, devastadora.
Mas ainda assim pode ter funcionado como solução.
Por isso uma pergunta clínica importante não é apenas:
“Do que essa pessoa é dependente?”
Mas:
“Para que isso se tornou necessário?”
Essa mudança de pergunta transforma profundamente a maneira de compreender o vício.
Prazer não é a mesma coisa que gozo
Lacan permite avançar um pouco mais quando distingue prazer e gozo.
O prazer tende à diminuição da tensão. Procuramos aquilo que nos faz bem e evitamos aquilo que nos causa sofrimento.
Mas o ser humano não funciona apenas dessa maneira.
Existem experiências às quais retornamos apesar do sofrimento que provocam.
É aí que aparece a noção de gozo.
Gozo não significa simplesmente um prazer muito intenso. É uma forma paradoxal de satisfação que pode incluir dor, excesso, desgaste e repetição.
É possível sofrer com alguma coisa e, ainda assim, retirar dela uma satisfação que não conseguimos simplesmente abandonar.
Isso ajuda a compreender uma frase tão frequente:
“Eu não quero mais isso, mas parece que alguma coisa em mim quer.”
Não significa que exista outra pessoa dentro do sujeito.
Significa que nosso desejo e nossas formas de satisfação não coincidem inteiramente com aquilo que conscientemente decidimos querer.
O sujeito é dividido.
E o vício mostra essa divisão quase sem disfarce.
O objeto que promete demais
Lacan coloca a falta no centro da experiência humana.
Isso pode parecer pessimista à primeira vista, mas não é.
A falta não significa simplesmente que alguma coisa deu errado.
É justamente porque não somos completos que desejamos.
Desejamos pessoas.
Ideias.
Projetos.
Reconhecimento.
Amor.
Conhecimento.
Experiências.
O desejo circula porque nenhum objeto consegue encerrá-lo definitivamente.
O problema começa quando algum objeto passa a oferecer uma promessa diferente:
“Comigo, você não precisará mais sentir essa falta.”
Só mais uma dose.
Só mais uma aposta.
Só mais uma compra.
Só mais um encontro.
Só mais um vídeo.
Só mais alguns minutos.
Existe sempre a promessa de uma satisfação finalmente completa.
Mas ela nunca chega.
E justamente porque não chega, o circuito precisa recomeçar.
Se o objeto satisfizesse definitivamente, a repetição terminaria.
O vício vive dessa pequena diferença entre aquilo que o objeto promete e aquilo que consegue oferecer.
Por alguns instantes, algo é suspenso.
A angústia diminui.
O silêncio desaparece.
A solidão recua.
O corpo muda.
O pensamento para.
E então tudo retorna.
É preciso novamente o objeto.
Uma satisfação que tenta dispensar o Outro
Há outra dimensão particularmente interessante em Lacan.
Grande parte dos nossos desejos passa pelo Outro.
Precisamos falar.
Esperar.
Pedir.
Seduzir.
Negociar.
Suportar uma recusa.
Aceitar que outra pessoa não existe simplesmente para satisfazer nossas necessidades.
O amor é trabalhoso justamente porque depende de outro sujeito.
Uma relação pode frustrar.
Uma pessoa pode ir embora.
O outro pode dizer não.
O objeto do vício oferece uma alternativa tentadora.
Ele está ali.
A garrafa não pergunta.
A substância não exige reciprocidade.
A aposta oferece imediatamente uma nova rodada.
A compra pode ser realizada em segundos.
O vídeo seguinte começa automaticamente.
Há nesses objetos a possibilidade de construir um circuito de satisfação que tenta reduzir a dependência da imprevisibilidade do outro.
Em lugar de uma relação, um consumo.
Em lugar de uma espera, uma descarga.
Em lugar de uma pergunta, uma resposta pronta.
É como se o sujeito tentasse organizar um pequeno circuito no qual pudesse administrar sozinho seu próprio gozo.
Mas o preço dessa autonomia pode ser enorme.
Porque quanto mais eficiente se torna esse circuito, menos espaço resta para o desejo.
Quando a libido começa a girar em torno de um único objeto
Freud nos ajuda novamente aqui.
Investimos libido no mundo.
Em pessoas.
Trabalho.
Amizades.
Amores.
Projetos.
Ideias.
Corpo.
Criação.
Curiosidade.
Podemos chamar esse movimento de investimento libidinal ou catexia.
No vício, progressivamente, uma quantidade cada vez maior desse investimento pode começar a se concentrar no circuito do objeto.
O sujeito pensa nele.
Espera por ele.
Organiza horários em torno dele.
Esconde seu uso.
Planeja quando poderá encontrá-lo novamente.
Protege o acesso.
Sofre quando ele falta.
Experimenta alívio quando ele retorna.
O objeto vai sendo fortemente investido.
E algo curioso acontece simultaneamente.
O restante do mundo pode começar a empobrecer.
Relações perdem interesse.
Projetos são abandonados.
Atividades antes prazerosas tornam-se indiferentes.
O futuro encolhe.
O campo do desejo diminui.
A vida passa a girar ao redor de uma satisfação cada vez mais estreita.
É por isso que tratar um vício não significa apenas retirar um objeto.
Existe também uma questão sobre para onde poderá voltar a circular a libido.
O que aparece quando o objeto falta?
Essa talvez seja uma das perguntas mais importantes.
Se retiramos o objeto, o que aparece?
Angústia?
Solidão?
Raiva?
Uma perda?
Uma sensação de vazio?
Um corpo difícil de suportar?
Pensamentos incessantes?
Uma cobrança impossível?
Uma lembrança?
Uma sensação de não saber o que fazer consigo mesmo?
Às vezes, abandonar o objeto significa encontrar justamente aquilo que ele vinha mantendo à distância.
E é por isso que parar pode ser tão difícil.
Não se trata apenas de perder uma fonte de prazer.
Pode significar perder uma solução.
Nesse momento, a clínica precisa evitar uma posição moralista.
Não adianta simplesmente dizer:
“Você precisa parar.”
O próprio sujeito frequentemente já sabe disso.
É necessário perguntar:
O que precisará ser construído para que esse objeto deixe de ser tão necessário?
O vício também fala quando parece apenas repetir
Na análise, começamos a investigar a história daquele circuito.
Quando começou?
O que estava acontecendo naquele período?
O que costuma acontecer imediatamente antes do impulso?
E depois?
Que sentimento aparece?
Com quem a pessoa estava?
O que havia acontecido naquele dia?
O que muda quando o objeto está disponível?
E o que aparece quando ele falta?
Aos poucos, aquilo que parecia apenas uma vontade incontrolável começa a adquirir relações.
Uma bebida pode começar a aparecer sempre depois de determinada sensação de fracasso.
Uma compulsão pode acompanhar experiências de rejeição.
O jogo pode surgir quando o sujeito sente que sua vida perdeu possibilidades.
A comida pode responder a uma solidão específica.
O sexo compulsivo pode aparecer justamente depois de situações em que o sujeito teme ter sido abandonado.
Não estamos procurando uma fórmula universal.
Estamos procurando a lógica singular da repetição.
O que parecia simplesmente acontecer começa a possuir uma história.
E aquilo que ganha história pode começar a ser elaborado.
Da repetição à palavra
Talvez um dos movimentos mais importantes de uma análise aconteça quando algo que precisava ser repetido começa a poder ser falado.
Antes:
“Isso simplesmente acontece comigo.”
Depois, talvez:
“Percebo que procuro isso sempre quando alguma coisa acontece.”
Mais adiante:
“Começo a entender o que estou tentando não sentir.”
Não significa que compreender racionalmente resolva automaticamente o vício.
O inconsciente não desaparece diante de uma explicação.
Mas alguma coisa muda quando o sujeito começa a reconhecer sua posição dentro do circuito.
A repetição deixa de ser completamente muda.
Surge uma pequena distância entre o impulso e o ato.
E nessa distância pode surgir algo precioso:
uma possibilidade de escolha.
Nenhum objeto nos completa
A sociedade contemporânea talvez torne esse problema ainda mais difícil.
Somos cercados por objetos que prometem satisfação imediata.
Compre agora.
Assista agora.
Peça agora.
Role novamente.
Aposte novamente.
Encontre alguém agora.
O mercado aprendeu muito bem a explorar uma característica fundamental do desejo humano:
a satisfação nunca é definitiva.
Sempre pode existir outro produto.
Outro vídeo.
Outra experiência.
Outro corpo.
Outra aposta.
Outra promessa.
A falta, que poderia colocar o desejo em movimento, transforma-se em oportunidade permanente de consumo.
Talvez por isso uma das experiências mais difíceis hoje seja simplesmente suportar um pouco de vazio.
Um intervalo.
Uma espera.
Um silêncio.
Não imediatamente preenchê-lo.
Porque é justamente nesse intervalo que alguma coisa do desejo pode aparecer.

O tratamento não consiste apenas em retirar
Tratar um vício não significa simplesmente arrancar o objeto da vida de alguém.
Em muitas situações, interromper o consumo é absolutamente necessário — às vezes com urgência e com acompanhamento médico.
Mas do ponto de vista psíquico permanece outra questão.
O que existirá onde antes estava o objeto?
Que relações poderão receber novamente investimento?
Que projetos poderão reaparecer?
Que interesses foram abandonados?
Que dores precisam ser elaboradas?
Que desejos ficaram reduzidos ao silêncio?
Que formas de satisfação podem ser construídas sem aprisionar toda a vida em um único circuito?
Talvez o tratamento também consista em permitir que o mundo volte a se ampliar.
A libido que se concentrou quase inteiramente no objeto pode encontrar outros destinos.
A vida pode novamente conter pessoas, projetos, curiosidade, criação e desejo.
Não porque a falta tenha desaparecido.
Mas justamente porque o sujeito já não precisa eliminá-la o tempo inteiro.
Da necessidade do objeto à possibilidade do desejo
A psicanálise não promete uma vida sem angústia.
Nem uma existência sem falta.
Muito menos uma satisfação permanente.
Talvez essa seja justamente sua posição mais radical.
Não existe objeto capaz de completar definitivamente um sujeito.
Mas isso não é uma condenação.
É o que torna possível continuar desejando.
Quando um único objeto se apresenta como resposta para tudo, a vida começa a diminuir ao redor dele.
Quando essa resposta deixa de ser absoluta, alguma coisa pode voltar a circular.
Outros vínculos.
Outros investimentos.
Outras perguntas.
Outros desejos.
Por isso, talvez a pergunta fundamental diante do vício não seja:
“Por que você não consegue parar?”
Mas:
“O que esse objeto está fazendo por você que, até agora, nenhuma outra coisa conseguiu fazer?”
Essa pergunta não absolve o sujeito de sua responsabilidade.
Também não romantiza o sofrimento.
Ela simplesmente abre uma possibilidade clínica.
Porque aquilo que hoje parece indispensável talvez tenha se tornado indispensável em algum momento da história.
E aquilo que adquiriu uma função pode, com trabalho, perder parte dessa necessidade quando outras formas de viver se tornam possíveis.
Há momentos em que o vício parece dizer:
“Sem isso, eu não sei como continuar.”
Talvez o trabalho da análise comece exatamente aí.
Não arrancando imediatamente uma resposta.
Mas ajudando o sujeito a construir outras.
Até que, pouco a pouco, alguma coisa possa mudar:
“Isso não precisa mais ser a única maneira que encontrei de continuar.”
Nos casos de dependência química importante, risco de abstinência, intoxicação recorrente ou grave comprometimento físico e social, a análise deve integrar-se ao acompanhamento médico e multiprofissional. A especificidade da psicanálise está em acrescentar uma pergunta que nenhum protocolo, sozinho, pode responder: por que esse objeto adquiriu justamente essa função na história singular desse sujeito?



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