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A psique contra a entropia: dor, perda e a luta para continuar vivendo

  • Foto do escritor: Arthur Alexander
    Arthur Alexander
  • há 11 minutos
  • 7 min de leitura

Viver é, em alguma medida, ser continuamente desorganizado pelo mundo.

Criamos vínculos, construímos projetos, fazemos planos, investimos pessoas, lugares, ideias e futuros com uma enorme quantidade de energia afetiva. Durante algum tempo, essas coisas ajudam a organizar nossa existência. Sabemos quem somos porque sabemos quem amamos, onde pertencemos, o que esperamos e em direção a que caminhamos.

Mas a vida não preserva necessariamente aquilo que organiza nossa história.

Pessoas morrem. Relações terminam. Corpos adoecem. Projetos fracassam. Filhos crescem. Lugares desaparecem. Algumas certezas que pareciam permanentes deixam simplesmente de existir.

E então a vida exige algo extraordinário da psique: reorganizar-se sem aquilo que antes a sustentava.

Talvez seja possível pensar a existência justamente nesse movimento contínuo entre organização e desorganização.

A vida contra a entropia

Na física, a entropia está associada à tendência dos sistemas para estados de maior dispersão e desordem. A vida é um fenômeno curioso porque consegue, localmente, manter estruturas altamente organizadas. Um organismo precisa gastar energia continuamente para preservar sua forma, reparar danos, manter diferenças internas e continuar existindo.

Um corpo vivo nunca está simplesmente pronto.

Ele trabalha o tempo inteiro para continuar sendo corpo.

A comparação com a vida psíquica precisa ser feita com cuidado. A psique não é literalmente um sistema termodinâmico, e seria um erro transformar conceitos da física em equivalentes psicológicos. Mas a metáfora é fértil.

Também psiquicamente parece existir um trabalho permanente de organização.

Nossa mente tenta produzir continuidade onde a experiência produz rupturas. Constrói narrativas, cria sentidos, estabelece vínculos, seleciona lembranças, esquece outras, fantasia futuros e transforma acontecimentos dispersos em uma história relativamente coerente que chamamos de “minha vida”.

Talvez aquilo que chamamos de identidade seja menos uma estrutura fixa do que esse trabalho contínuo de organização.

E poucas coisas revelam isso de maneira tão clara quanto uma perda.

Libido: a energia com que investimos o mundo

Freud chamou de libido a energia psíquica relacionada às pulsões e aos investimentos amorosos.

O termo costuma ser reduzido à sexualidade, mas, em psicanálise, seu sentido é muito mais amplo. Investimos libido em pessoas, relações, ideias, projetos e ideais.

Quando alguém ama, não apenas reconhece que o outro existe.

Ele o investe.

Uma parte da vida psíquica passa a circular naquele vínculo.

Esperamos aquela pessoa. Imaginamos conversas. Construímos futuros. Desenvolvemos hábitos. Organizamos nosso cotidiano levando sua existência em consideração.

Freud utilizou o termo Besetzung, tradicionalmente traduzido como catexia, para falar desse investimento de energia psíquica em uma representação, objeto ou ideia.

Podemos imaginar a catexia como uma espécie de ligação.

A libido encontra um objeto e se liga a ele.

Quanto mais importante esse objeto se torna, mais intensamente ele participa da organização da vida psíquica.

É exatamente por isso que perder dói.

Pessoa caminha por calçada molhada ao pôr do sol, com skyline de Nova York e céu dourado ao fundo.
Durante uma manhã tranquila, uma pessoa caminha por uma rua vazia de Nova York, enquanto o sol nasce, banhando a cidade com uma luz dourada.

Quando o objeto desaparece, o investimento permanece

Há algo profundamente estranho na experiência da perda.

O objeto desaparece da realidade, mas não desaparece imediatamente da psique.

Uma pessoa pode morrer, mas continuamos esperando ouvir sua voz.

Uma relação pode terminar, mas continuamos imaginando conversas que nunca acontecerão.

Uma casa pode ser vendida, mas continuamos entrando mentalmente em seus cômodos.

A realidade diz:

“Isso não está mais aqui.”

Mas o investimento psíquico responde:

“Para mim, ainda está.”

É nesse intervalo que aparece parte da experiência dolorosa do luto.

A libido permanece investida em um objeto que já não pode responder a esse investimento da mesma maneira.

Freud percebeu isso com enorme clareza em seu texto Luto e Melancolia.

O trabalho do luto consiste, entre outras coisas, em um lento processo de desinvestimento.

A libido precisa retirar-se, progressivamente, das ligações que mantinham o objeto perdido presente na vida psíquica.

Mas isso não acontece de uma vez.

Cada lembrança, cada expectativa e cada fragmento de vida ligado ao objeto precisa, de alguma maneira, ser reencontrado.

Por isso o luto é um trabalho.

E por isso ele cansa tanto.

A dor é o preço da ligação

J.-D. Nasio desenvolveu uma formulação particularmente interessante sobre a dor psíquica.

Quando perdemos alguém profundamente investido, não ocorre simplesmente um desaparecimento da energia ligada a essa pessoa.

Pode acontecer justamente o contrário.

As representações do objeto perdido tornam-se intensamente investidas.

Pensamos mais naquela pessoa.

Lembramos mais.

Sonhamos.

Recriamos situações.

Voltamos mentalmente ao último encontro, à última frase, ao último gesto.

Há uma espécie de hipercatexia das representações do objeto perdido.

O objeto desapareceu do mundo exterior, mas torna-se extraordinariamente presente no mundo interior.

Isso ajuda a compreender uma das características mais paradoxais da dor.

Aquilo que perdemos parece estar, ao mesmo tempo, mais presente do que nunca.

A dor seria então, em parte, o resultado dessa enorme concentração de investimento em algo que já não possui uma presença correspondente na realidade.

A libido perdeu seu objeto, mas ainda não encontrou outro destino.

A dor pode buscar a cura?

Precisamos ser cuidadosos aqui.

A dor não cura automaticamente.

Existem sofrimentos que se repetem durante décadas sem produzir elaboração alguma.

Uma pessoa pode permanecer inteiramente capturada por uma perda.

Pode repetir incessantemente o acontecimento.

Pode transformar o sofrimento em identidade.

Pode impedir novos investimentos.

Portanto, sofrer não significa necessariamente elaborar.

Mas a dor pode fazer parte de um processo de cura quando consegue entrar em um trabalho psíquico de transformação.

Talvez possamos dizer que a dor sinaliza uma tarefa.

Algo foi profundamente desorganizado.

Agora o aparelho psíquico precisa construir uma nova forma de existir.

Nesse sentido, a cura não é apagar o que aconteceu.

É conseguir reorganizar a vida sem precisar negar aquilo que foi perdido.

O retorno da libido

Quando o trabalho de luto avança, ocorre algo fundamental.

A libido começa a se desprender do objeto perdido.

Não significa esquecer.

Também não significa deixar de amar.

Significa que o objeto deixa de exigir toda a energia psíquica disponível.

Uma lembrança pode continuar existindo sem paralisar a vida.

Uma pessoa pode continuar sendo amada sem precisar permanecer presente em todos os pensamentos.

Aquilo que foi perdido passa a ocupar outro lugar.

A libido torna-se então novamente disponível.

Ela pode ser reinvestida.

Novos vínculos.

Novos projetos.

Novos interesses.

Novas pessoas.

Novas formas de desejar.

Talvez seja esse um dos sinais mais importantes de que alguma elaboração aconteceu:

a vida volta a despertar curiosidade.

A libido recupera futuro.

O sintoma como tentativa de organização

Essa perspectiva também permite olhar para os sintomas de outra maneira.

Costumamos pensar o sintoma apenas como algo que deu errado.

Ansiedade.

Compulsões.

Fobias.

Repetições.

Inibições.

Mas Freud descobriu algo desconcertante: o sintoma também é uma solução.

Uma solução custosa, frequentemente dolorosa, mas ainda assim uma tentativa de organização.

Diante de conflitos que o sujeito não consegue resolver diretamente, o aparelho psíquico constrói compromissos.

O sintoma permite manter determinadas forças afastadas enquanto outras conseguem continuar funcionando.

Podemos pensar nele como uma pequena arquitetura construída para evitar um colapso maior.

É por isso que simplesmente retirar um sintoma nem sempre resolve o sofrimento.

Às vezes, retiramos a solução antes que exista outra maneira de organizar aquilo que ela sustentava.

A análise tenta compreender:

o que esse sintoma está tentando resolver?

E o inconsciente?

Foi aqui que surgiu uma hipótese particularmente interessante.

Talvez o inconsciente fosse o lugar onde despejamos a “entropia” que não conseguimos organizar conscientemente.

É uma imagem sedutora.

Mas eu a modificaria.

O inconsciente não parece ser um depósito de desordem.

Ele é, na verdade, extraordinariamente ativo.

Sonhos associam fragmentos aparentemente desconexos.

Sintomas ligam experiências distantes no tempo.

Lapsos aproximam palavras que conscientemente manteríamos separadas.

Memórias infantis reaparecem transformadas em situações adultas.

Há deslocamentos, condensações, substituições e repetições.

O inconsciente trabalha.

Talvez pudéssemos formular assim:

O inconsciente é um dos lugares onde aquilo que não pôde ser integrado à nossa narrativa consciente continua tentando encontrar alguma forma de organização.

Não é a entropia.

É parte do trabalho realizado diante dela.

O resto que retorna

Mas há sempre alguma coisa que não conseguimos integrar completamente.

Experiências que não encontram palavras.

Afetos que não sabemos localizar.

Contradições que preferimos não reconhecer.

Desejos incompatíveis com a imagem que construímos de nós mesmos.

Uma parte disso é recalcada.

Mas o recalcado não desaparece.

Ele retorna.

Em sonhos.

Sintomas.

Escolhas.

Relacionamentos.

Repetições.

Talvez seja possível pensar que aquilo que não conseguimos organizar simbolicamente reaparece tentando ser novamente trabalhado.

Por isso repetimos.

Não necessariamente porque desejamos conscientemente sofrer outra vez, mas porque alguma coisa da experiência permaneceu sem elaboração suficiente.

A repetição seria, nesse sentido, uma nova tentativa de resolver uma antiga equação.

A análise como criação de novas ligações

Uma das palavras mais interessantes na teoria freudiana é ligação.

Há experiências que chegam ao psiquismo com intensidade demais.

Precisam ser ligadas a representações, palavras, lembranças e associações para que possam ser elaboradas.

É exatamente isso que muitas vezes acontece durante uma análise.

Uma pessoa chega dizendo:

“Tenho ansiedade.”

Depois de algum tempo, a ansiedade passa a ter uma história.

Aparecem relações.

Perdas.

Expectativas.

Medos.

Desejos.

Frases ouvidas na infância.

Ideais impossíveis.

Situações que aparentemente não tinham relação começam a produzir ligações.

O que antes era apenas sensação começa a ganhar representação.

O que era corpo encontra palavras.

O que era repetição ganha história.

E o que ganha história pode, em alguma medida, deixar de precisar repetir-se exatamente da mesma maneira.

Nesse sentido, poderíamos imaginar a análise como um trabalho de reorganização psíquica.

Não porque o analista organize a vida do paciente.

Mas porque a fala permite que novas ligações sejam construídas.

A psique como estratégia contra a desorganização

Talvez então possamos retornar à metáfora inicial.

A vida biológica precisa gastar energia continuamente para preservar sua organização diante da tendência à dispersão.

A vida psíquica também parece trabalhar incessantemente para construir alguma continuidade diante daquilo que a experiência rompe.

Perdemos.

Sofremos.

Recalcamos.

Sonhamos.

Repetimos.

Falamos.

Elaboramos.

Investimos novamente.

Talvez possamos pensar a psique como uma das estratégias que a vida encontrou para continuar existindo depois de ser transformada pelo mundo.

Ela não elimina a desordem.

Ela trabalha com ela.

Transforma parte dela em memória.

Outra parte em fantasia.

Outra em sintoma.

Outra em narrativa.

E, quando possível, transforma alguma coisa em desejo.

O que a vida tira e o que ela devolve

Toda perda introduz uma espécie de ruptura na organização que havíamos construído.

Mas talvez a capacidade humana mais extraordinária esteja justamente aí.

Não somos apenas capazes de conservar.

Somos capazes de reorganizar.

Podemos perder um objeto sem perder definitivamente a capacidade de investir.

Podemos ser transformados por uma experiência sem permanecer eternamente presos a ela.

Podemos carregar nossos mortos sem precisar morrer junto com eles.

Podemos guardar aquilo que amamos e, ao mesmo tempo, voltar a amar.

É possível que a verdadeira função do luto não seja nos ensinar a esquecer.

Talvez seja ensinar à libido que ela pode sobreviver à perda de seus objetos.

A pessoa que emerge de um luto nunca é exatamente aquela que existia antes.

Algo foi perdido.

Algo permanece.

Algo precisou ser reconstruído.

E alguma coisa nova começa lentamente a receber investimento.

Nesse ponto, a dor talvez tenha realizado parte de seu trabalho.

Não porque tenha desaparecido completamente.

Mas porque deixou de ocupar todo o espaço disponível.

A vida conseguiu novamente criar ligações.

A libido voltou a circular.

O desejo recuperou algum futuro.

E talvez seja justamente isso que chamamos, quando não encontramos palavra melhor, de cura.

 
 
 

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