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O desejo inventa caminhos onde antes só havia vazio

  • Foto do escritor: Arthur Alexander
    Arthur Alexander
  • há 13 horas
  • 5 min de leitura

O desejo é uma promessa. Não uma promessa honesta, dessas que vêm com contrato, prazo e garantia. O desejo promete como promete um clarão no escuro: não explica nada, apenas chama. E nós vamos. Vamos porque alguma coisa em nós acredita que, depois daquela curva, depois daquele amor, depois daquela mensagem respondida, depois daquele reencontro impossível, haverá finalmente um lugar onde a falta descansará.

Mas a falta não descansa. A falta é o motor.

O desejo nasce onde algo falta

Lacan nos ensinou que o desejo não é uma simples vontade. Não é querer um carro, uma casa, um corpo, uma pessoa, uma vida mais confortável. Isso é demanda, necessidade, consumo, distração. O desejo é mais traiçoeiro. Ele nasce justamente onde algo falta. E, porque falta, ele cria mundo. O desejo abre estrada no deserto. Faz existir uma cidade onde antes havia apenas areia. Faz alguém atravessar anos por uma frase que nunca veio, por um olhar que talvez tenha prometido demais, por um amor que existiu menos no mundo do que na cena íntima da fantasia.

O desejo nos promete algo e, nessa promessa, nos faz caminhar para lugares que antes não existiam.

No amor, não se perde apenas alguém

É assim no amor. A pessoa não ama apenas o outro. Ama também aquilo que o outro faz brilhar nela. Ama a versão de si mesma que aparece diante daquele olhar. Ama a cena que construiu, a história que começou a escrever sem perceber, o futuro que se desenhou antes mesmo de ser vivido. Por isso, algumas relações são tão difíceis de abandonar. Não se perde apenas alguém. Perde-se um teatro inteiro. Perde-se o papel, o cenário, a esperança, a frase que um dia talvez fosse dita.

O sujeito, diante do amor, não quer apenas ser amado. Quer saber o que é para o desejo do Outro.

“Quem sou eu para você?”

Essa pergunta, quase nunca dita dessa forma, atravessa tantas relações. Ela aparece como ciúme, como cobrança, como silêncio, como sintoma, como insônia, como necessidade de prova. A pessoa pede amor, mas o que busca é outra coisa: busca um lugar. Um lugar no desejo do outro. Um lugar que lhe diga que sua existência não é qualquer coisa.

E aí começa o perigo.

Porque o amor pode se tornar uma prisão quando o sujeito aceita sofrer apenas para não perder esse lugar. Ele sabe que dói, sabe que se diminui, sabe que repete a mesma cena, mas continua. Continua porque sair dali não significaria apenas terminar uma relação. Significaria encarar o abismo de não saber mais quem é sem aquela promessa.

O desejo é cruel porque não aponta para o objeto real, mas para o objeto perdido. O que buscamos no outro nunca está exatamente no outro. Está nesse resto, nesse brilho, nesse objeto pequeno a, causa do desejo, que faz o outro parecer portador de uma resposta. Não é que o outro tenha a resposta. É que, por um instante, ele encarna a pergunta.

E nós confundimos.

Confundimos amor com salvação. Confundimos saudade com destino. Confundimos intensidade com verdade. Confundimos sofrimento com profundidade. Há relações que parecem grandes não porque nos fazem bem, mas porque reabrem feridas antigas com uma precisão quase artística. O sujeito diz: “nunca amei assim”. Talvez. Mas talvez nunca tenha sofrido de forma tão familiar.

A repetição se veste de novidade

A repetição tem esse cinismo: ela se veste de novidade.

Trocam-se os nomes, os rostos, os endereços, mas a cena retorna. De novo a espera. De novo a angústia. De novo a pessoa indisponível. De novo a tentativa de ser finalmente escolhido. De novo o esforço para arrancar do outro uma palavra que pacifique o corpo. E, quando a palavra vem, ela dura pouco. Porque nenhuma palavra do outro consegue suturar definitivamente a falta.

O desejo não quer ser satisfeito. O desejo quer continuar desejando.

É por isso que certas promessas sustentam uma vida inteira. “Um dia ele muda.” “Um dia ela entende.” “Um dia eu serei amado como preciso.” “Um dia isso tudo fará sentido.” E esse “um dia” vira uma religião íntima. A pessoa passa a viver não com o outro real, mas com o outro possível. O parceiro concreto decepciona, machuca, desaparece, agride com silêncio ou indiferença. Mas o parceiro imaginário permanece intacto, luminoso, sempre prestes a chegar.

O sujeito não está preso apenas ao que vive. Está preso ao que espera.

Quando a esperança também faz sofrer

E a esperança, quando se mistura ao gozo, pode ser uma forma refinada de sofrimento. Porque há um gozo em repetir, mesmo quando se sofre. Um gozo estranho, paradoxal, que não é prazer, mas insistência. Algo em nós retorna ao mesmo ponto, como se ali houvesse uma verdade escondida. Como se, dessa vez, a ferida pudesse ter outro final.

Pessoa caminha por trilha dourada luminosa rumo a cidade fantástica com arcos, em vale sombrio e céu etéreo.
Um homem caminha por um caminho dourado em direção a uma cidade celestial, rodeada por nuvens etéreas e estruturas magníficas, simbolizando uma jornada espiritual ou de autodescoberta.

A análise começa quando a repetição pode ser escutada

A análise começa quando essa repetição pode ser escutada.

Não para dizer ao sujeito o que fazer. Não para ordenar: “termine”, “fique”, “esqueça”, “supere”. A psicanálise não é uma polícia da felicidade. Ela não distribui conselhos como quem vende manual de vida. A análise pergunta outra coisa: qual é a sua parte nessa cena? Que lugar você ocupa nesse sofrimento? O que você chama de amor talvez esteja servindo a qual fantasia? O que você teme perder quando diz que não consegue ir embora?

Porque, muitas vezes, o sujeito não teme perder apenas o outro. Teme perder a própria montagem que o sustentava.

Há quem prefira uma dor conhecida a uma liberdade sem garantias. Há quem permaneça no inferno porque, ao menos ali, sabe o caminho dos corredores. A saída assusta porque não oferece personagem pronto. Fora daquela relação, talvez seja preciso inventar outra maneira de existir. E inventar-se dá trabalho. Dá medo. Dá luto.

Mas há um momento em que o desejo pode deixar de ser apenas prisão e voltar a ser abertura.

Quando o sujeito começa a distinguir desejo de demanda, amor de dependência, esperança de repetição, promessa de realidade, algo se desloca. Não necessariamente de uma vez. Não como nos filmes, onde alguém fecha a porta, atravessa a rua e renasce ao som de uma música triunfal. Na vida real, as separações importantes acontecem primeiro dentro da linguagem. A pessoa começa a dizer de outro modo aquilo que antes apenas sofria.

E quando se diz de outro modo, já não se está exatamente no mesmo lugar.

Talvez o desejo continue prometendo. Ele sempre promete. Mas a análise pode ajudar o sujeito a não obedecer cegamente a toda promessa. Pode ajudá-lo a perguntar: para onde estou caminhando? O que essa promessa me custa? O que, em mim, insiste em permanecer onde dói? E que outro caminho pode começar a existir quando deixo de esperar que o outro me entregue a resposta sobre quem sou?

O desejo inventa caminhos onde antes só havia vazio.

Mas nem todo caminho precisa levar de volta ao mesmo sofrimento.

Às vezes, a travessia mais difícil não é abandonar alguém. É abandonar a fantasia de que, naquele alguém, finalmente encontraríamos aquilo que nos falta.

E, ainda assim, há vida depois disso.

Não uma vida completa, sem falta, sem angústia, sem desejo. Isso seria propaganda enganosa. Mas uma vida menos ajoelhada diante da promessa do outro. Uma vida em que o sujeito possa desejar sem se destruir, amar sem desaparecer, perder sem deixar de existir.

Porque talvez amadurecer no amor seja isto: descobrir que ninguém nos salvará da falta.

E, apesar disso, continuar caminhando.



 
 
 

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© 2026 por Arthur Alexander Abrahão

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