O sintoma e o compromisso
- Arthur Alexander

- há 12 horas
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É nesse sentido que Freud descreve o sintoma como formação de compromisso, e que Lacan aprofunda essa ideia ao situá-lo na estrutura da linguagem e do desejo.
A palavra “compromisso”, aqui, não tem o sentido moral de “ser comprometido” nem o sentido cotidiano de “ter um compromisso marcado”. Em psicanálise, trata-se de uma composição instável entre forças em conflito. O sintoma nasce como uma espécie de arranjo: de um lado, algo insiste — um desejo, uma fantasia, uma exigência pulsional, uma marca inconsciente; de outro, há barreiras — recalque, ideal de eu, culpa, medo de perder amor, interdições simbólicas. O sintoma aparece, então, como um modo de expressão e, ao mesmo tempo, de disfarce. Ele diz e oculta. Satisfaz e faz sofrer. Protege e aprisiona.
Essa ambiguidade é central. Se o sintoma fosse apenas sofrimento puro, talvez fosse mais simples abandoná-lo. Mas ele costuma trazer, junto da dor, uma forma de organização psíquica, uma defesa, uma solução precária para um impasse. É por isso que certas repetições persistem mesmo quando a pessoa compreende racionalmente que lhe fazem mal. A pergunta clínica não é apenas “por que isso continua?”, mas “o que isso resolve, ainda que custe caro?”.
O sintoma não é um erro sem sentido
No senso comum, é comum tratar o sintoma como um erro de funcionamento: uma ansiedade “sem motivo”, uma compulsão “sem sentido”, uma repetição amorosa “irracional”, uma dor “inexplicável”. A psicanálise não nega o sofrimento real envolvido, mas propõe outra via de leitura: o sintoma tem uma lógica. Não uma lógica transparente para a consciência, mas uma lógica inconsciente.
Freud mostrou que sonhos, lapsos, atos falhos e sintomas pertencem a uma mesma família de formações do inconsciente. Todos eles implicam trabalho psíquico: deslocamento, condensação, substituição, retorno do recalcado. Lacan retoma esse campo e enfatiza que o sintoma pode ser lido como uma escrita singular, feita de significantes, de marcas de linguagem, de enunciados herdados, de equívocos que se repetem. O sintoma não é um “defeito” externo ao sujeito; ele participa da maneira como o sujeito se constituiu e encontrou um modo de se manter diante do desejo do Outro.
Isso muda profundamente a posição clínica. Em vez de perguntar “como calar isso rapidamente?”, passa-se a perguntar “o que isso está dizendo?”, “em que ponto da sua história isso se torna necessário?”, “que satisfação paradoxal existe aí?”. Essa mudança não é teórica apenas; ela tem efeitos concretos. A pessoa deixa de se tratar apenas como vítima de um mecanismo estranho e pode começar a se implicar naquilo que repete, sem cair em culpa moral.
Formação de compromisso: o que está em compromisso?
Quando Freud fala em formação de compromisso, ele está descrevendo uma solução intermediária entre tendências incompatíveis. Há algo que quer aparecer e algo que impede. O sintoma é o resultado dessa negociação inconsciente.
Podemos pensar em três polos que frequentemente participam dessa composição:
O desejo inconsciente, que insiste mesmo quando não é reconhecido.
O recalque e as defesas, que barram a entrada desse conteúdo na consciência.
A exigência do eu e do ideal, que tentam manter uma imagem coerente de si.
O sintoma surge quando nenhum desses polos vence completamente. Se o desejo aparecesse de modo direto, talvez gerasse angústia insuportável, culpa ou ruptura de laços importantes. Se a defesa barrasse tudo de forma absoluta, a vida psíquica se tornaria rígida demais, e o retorno do recalcado encontraria outras brechas. O sintoma é, então, uma saída de compromisso: permite uma expressão deformada do que foi recalcado, ao mesmo tempo em que mantém o recalcamento em funcionamento.
Por isso ele é tão resistente. Mexer no sintoma não é só mexer no sofrimento; é mexer num ponto de equilíbrio (ainda que precário) de toda uma economia psíquica. Em muitos casos, quando um sintoma cai sem elaboração, outro aparece no lugar. Não porque a pessoa “goste de sofrer”, mas porque a função daquele arranjo continua necessária enquanto o conflito de fundo permanece sem simbolização.
Lacan: sintoma, linguagem e gozo
Lacan radicaliza essa leitura ao mostrar que o sintoma não deve ser pensado apenas como mensagem a decifrar, mas também como modo de gozo. Isso é um ponto importante e delicado. “Gozo”, em Lacan, não é simples prazer. Trata-se de uma satisfação que pode incluir sofrimento, excesso, repetição e até desprazer. Algo pode doer e ainda assim prender o sujeito, justamente porque ali há uma fixação libidinal, uma forma de satisfação inconsciente.
Nesse sentido, o sintoma é compromisso em dois níveis. Primeiro, entre desejo e defesa, como em Freud. Segundo, entre sentido e gozo: o sintoma pode carregar uma significação na história do sujeito, mas também uma insistência que não se reduz ao significado. Às vezes a pessoa compreende muito sobre si e, ainda assim, algo da repetição persiste. Isso não invalida a análise; mostra que o sintoma não é só “conteúdo escondido”, mas uma amarração entre corpo, linguagem e gozo.
Lacan também ajuda a pensar como o sintoma se enlaça ao discurso do Outro — às frases, expectativas, nomeações e ideais que marcaram a constituição do sujeito. Um sintoma pode funcionar como resposta a uma pergunta inconsciente: “o que esperam de mim?”, “como manter o amor do outro?”, “como não decepcionar?”, “como existir sem ser engolido por essa exigência?”. Muitas vezes, o sintoma é um modo de responder a isso sem formular a pergunta de forma explícita.
Exemplo fictício: o compromisso que custa caro
Vamos imaginar um caso fictício. Marcos, 41 anos, professor universitário, procura análise porque sofre de crises recorrentes de enxaqueca sempre que se aproxima o prazo de entrega de projetos importantes. Ele diz: “É impressionante. Quando estou quase finalizando algo grande, eu travo. Fico mal, nauseado, sem conseguir olhar para a tela. Depois me culpo por perder prazo.” Os exames médicos identificam predisposição a enxaqueca, mas a frequência e a coincidência com certas situações chamam atenção.
No início, Marcos descreve o problema como um obstáculo puramente físico. Aos poucos, em sua fala, aparece um padrão: ele adia a conclusão dos trabalhos e sofre intensamente quando precisa mostrar algo como “seu”. Conta que, na adolescência, o pai dizia que ele era “brilhante”, mas em tom que soava como cobrança. Ao mesmo tempo, qualquer imperfeição era ridicularizada: “Você é inteligente demais para entregar isso.” A mãe, por outro lado, buscava nele apoio emocional e costumava comentar que o filho era o “orgulho da casa”.
Marcos cresceu entre duas pressões: ser excepcional e não falhar. Com o tempo, construiu uma imagem de competência sólida, admirada pelos colegas. Mas, perto da entrega final — justamente quando seu trabalho se torna público e sujeito a julgamento — aparece a enxaqueca. O sintoma, lido como formação de compromisso, revela sua dupla face.
Por um lado, ele expressa algo do conflito: expor um trabalho próprio convoca o medo de crítica, de humilhação, de perder o lugar idealizado. Por outro, a crise oferece uma saída: ela suspende o ato de se expor. A enxaqueca funciona como limite corporal onde Marcos não consegue, por palavra, assumir um limite subjetivo (por exemplo, tolerar a imperfeição, pedir prazo, sustentar que um trabalho bom não precisa ser perfeito). O sintoma o faz sofrer, mas também o protege de um ponto de angústia.
Além disso, há uma satisfação inconsciente em jogo: ao adoecer, Marcos permanece preso à cena em que precisa provar valor e, simultaneamente, escapar dela. O sintoma mantém viva a relação com a exigência do Outro. Ele se queixa do sofrimento, mas continua capturado na mesma lógica: “preciso entregar algo impecável” e “não consigo entregar”. O compromisso sintomático sustenta a tensão.
No trabalho analítico, a questão não seria apenas “como eliminar a enxaqueca?”, mas “que lugar essa crise ocupa na sua economia psíquica?”, “de que exigência ela o protege?”, “o que se torna possível ou impossível quando você adoece?”. Ao localizar a função do sintoma, Marcos pode começar a construir outras saídas: suportar melhor a incompletude, separar crítica de aniquilação, reconhecer sua própria parcela de desejo no trabalho que produz. A redução do sintoma pode vir como efeito dessa reconfiguração, e não apenas como imposição de controle.
O compromisso pode ser transformado
Entender o sintoma como formação de compromisso não significa glorificar o sofrimento nem defender que a pessoa “fique com seu sintoma”. Significa reconhecer que há uma inteligência inconsciente em jogo, uma solução que teve função em algum momento, ainda que hoje se torne custosa demais. Essa leitura evita tanto a culpabilização (“você faz isso porque quer”) quanto a simplificação (“isso não significa nada”).
A psicanálise oferece um espaço para que esse compromisso sintomático seja escutado, nomeado e, aos poucos, transformado. Em vez de uma guerra cega contra o sintoma, trata-se de produzir condições para que o sujeito encontre outras formas de lidar com o conflito que ele estava sustentando. Em alguns casos, o sintoma desaparece; em outros, perde intensidade, rigidez ou centralidade; em outros ainda, muda de estatuto, deixando de comandar silenciosamente a vida do sujeito.
O ponto central é este: o sintoma é sofrimento, mas não só. Ele é também arranjo, mensagem, defesa, modo de gozo e resposta a um impasse. Chamá-lo de formação de compromisso é levar a sério sua complexidade. E é justamente essa seriedade que abre a possibilidade de mudança real, menos baseada em exigência e mais em elaboração.



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