top of page

Entre o ideal e o desejo: por que adoecemos tentando corresponder

  • Foto do escritor: Arthur Alexander
    Arthur Alexander
  • há 12 horas
  • 6 min de leitura


Muitas formas de sofrimento psíquico nascem em um ponto silencioso: a tentativa de corresponder. Corresponder ao que esperam de nós, ao que imaginamos que esperam, ao que aprendemos que seria “certo”, “admirável” ou “suficiente”. Às vezes isso aparece como perfeccionismo. Outras vezes, como ansiedade constante, culpa, sensação de fracasso, exaustão, dificuldade de descansar, procrastinação ou um vazio estranho mesmo quando tudo parece estar “indo bem”. A pessoa faz muito, entrega muito, sustenta muito — e ainda assim sente que está devendo.

A psicanálise, especialmente em diálogo com Freud e Lacan, oferece uma forma profunda de ler esse mal-estar. Em vez de tratá-lo apenas como falta de organização, baixa autoestima ou problema de desempenho, ela pergunta: a quem, exatamente, você está tentando corresponder? E mais: o que se perde de você nesse esforço?

Essa pergunta nos leva a uma tensão central da vida psíquica: a tensão entre o ideal e o desejo.


O ideal: necessário, mas exigente


Todos nós nos constituímos em relação a ideais. Desde cedo, recebemos marcas, elogios, críticas, expectativas e nomes. “Menino comportado”, “filha forte”, “o inteligente da casa”, “a que resolve tudo”, “não decepcione”, “você tem futuro”, “seja alguém na vida”. Essas frases podem parecer banais, mas muitas vezes deixam inscrições profundas. Elas ajudam a organizar a entrada da criança no mundo simbólico, no campo da linguagem e da convivência. Em algum grau, os ideais são necessários: eles orientam, sustentam pertencimento e oferecem referências.

O problema começa quando o ideal deixa de ser referência e passa a funcionar como tirano. Quando não é mais um horizonte, mas uma medida cruel e permanente. Quando o sujeito passa a viver sob um tribunal interno diante do qual está sempre em falta.

Na tradição psicanalítica, podemos pensar esse campo a partir do ideal do eu e do supereu. Sem entrar em excesso de tecnicismo, basta dizer que há instâncias psíquicas ligadas à imagem do que deveríamos ser e às exigências que nos comandam. Em muitos casos, a pessoa acredita estar “apenas querendo melhorar”, quando na verdade está submetida a uma lógica de cobrança que não conhece limite.

É comum ouvir frases como: “Eu sei que estou cansado, mas não consigo parar”; “Se eu descansar, sinto culpa”; “Se eu erro, parece que eu não valho nada”; “Mesmo quando elogiam, eu sinto que fiz pouco”. Essas falas mostram que não se trata apenas de metas externas. Há uma voz internalizada, uma medida íntima e severa, que transforma a vida em prova constante.


O desejo: não é capricho


Quando se fala em desejo, muita gente imagina algo próximo de vontade imediata ou impulso espontâneo. Na psicanálise, especialmente em Lacan, o desejo é mais complexo. Ele não é simples capricho, nem uma lista de preferências conscientes. O desejo se constitui na relação com o outro, com a linguagem, com aquilo que nos faltou e com as perguntas que nos atravessam: “o que querem de mim?”, “como ser amado?”, “qual é meu lugar?”.

Por isso, o desejo não aparece pronto e transparente. Muitas vezes, ele surge de forma torta, recortada, contraditória. Às vezes, só percebemos algo do desejo quando estamos muito longe dele — por exemplo, quando adoecemos tentando viver apenas para corresponder.

Adoecer, nesse contexto, não significa necessariamente uma doença orgânica (embora o corpo possa ser profundamente afetado). Pode significar entrar em sofrimento psíquico persistente: ansiedade, sintomas corporais sem explicação médica suficiente, crises de pânico, insônia, compulsões, irritabilidade, desânimo, sensação de vazio, paralisia diante de decisões, dificuldade de sustentar relações. Em muitos casos, esses sofrimentos aparecem como se fossem “sem motivo”, mas carregam uma lógica: eles se organizam justamente no ponto em que o sujeito se distancia demais de seu desejo para manter uma imagem ideal.


Tentar corresponder demais pode virar sintoma


Lacan ajuda a pensar que o sintoma não é apenas um defeito a ser eliminado, mas uma solução psíquica — uma solução precária, sofrida, mas ainda assim uma solução. Quando alguém adoece tentando corresponder, o sintoma pode estar fazendo um trabalho paradoxal: ao mesmo tempo em que causa sofrimento, ele também impõe um limite onde o sujeito não consegue colocar limite por palavra.

Pense em alguém que diz “sim” para tudo, nunca pede ajuda, precisa ser impecável e está sempre disponível. Em algum momento, o corpo colapsa, a ansiedade explode, a insônia aparece, a concentração falha. A pessoa se sente traída pelo próprio corpo, como se estivesse “fraca” ou “defeituosa”. Mas uma escuta psicanalítica pode perguntar: o que esse colapso interrompe? Que engrenagem ele força a parar?

Isso não significa romantizar o sofrimento. Significa reconhecer que há uma função inconsciente em jogo. O sintoma pode ser a única forma encontrada, naquele momento, para dizer “não” a uma exigência impossível. O problema é que ele diz isso cobrando caro demais.


Um exemplo fictício


Vamos imaginar uma personagem fictícia, Clara, 36 anos, médica. Ela é vista como competente, dedicada e confiável. No hospital, costuma assumir plantões extras e resolver problemas que não eram dela. Entre amigos e família, é “a pessoa que dá conta”. Clara procura análise após episódios de taquicardia e crises de choro no carro, antes de chegar ao trabalho. Ela diz: “Minha vida está boa. Eu não tenho motivo para isso. Acho que estou ficando fraca.”

Nas primeiras conversas, Clara fala muito de desempenho. Conta quantas horas trabalhou, quantas tarefas concluiu, quantas pessoas ajudou. Quase não fala de si, a não ser para se cobrar. Quando o analista pergunta o que ela gostaria, ela responde com estranhamento: “Gostaria? Não sei. Eu preciso fazer o que tem que ser feito.”

Aos poucos, aparecem cenas de sua história. Na infância, ela era a filha que “não dava trabalho”, especialmente porque a mãe enfrentava depressão e o pai passava longos períodos fora. Clara aprendeu cedo a perceber o humor dos outros, antecipar necessidades e evitar conflitos. Era elogiada quando era madura, útil, responsável. Quando chorava ou se irritava, ouvia: “Você é forte, não faz isso com a sua mãe.”

Sem perceber, Clara construiu sua identidade em torno de um ideal: ser aquela que sustenta. Esse ideal lhe deu valor, lugar, reconhecimento. Mas também cobrou um preço: ela foi perdendo contato com a própria experiência de limite, cansaço, desejo e ambivalência. Não sabia mais distinguir cuidado de sobrecarga, disponibilidade de apagamento de si.

As crises de taquicardia aparecem justamente quando a rotina se torna insustentável e ela segue tentando manter a mesma imagem. O sintoma surge como falha — mas também como interrupção. O corpo acelera, ela chora, precisa parar o carro. Algo se impõe onde Clara não consegue ainda dizer: “eu não posso”, “eu não quero isso”, “eu preciso de ajuda”, “eu não sou apenas essa função”.

Nessa leitura, o sofrimento de Clara não é “frescura”, nem falta de resiliência. Também não se reduz a estresse ocupacional, embora o contexto pese. Há uma lógica subjetiva: ela tenta corresponder a um ideal que organiza seu valor desde muito cedo, e o sintoma aparece quando essa correspondência cobra mais do que ela pode pagar.

O trabalho analítico, nesse caso, não seria simplesmente ensinar Clara a “gestão de tempo” (embora ajustes práticos possam ajudar). Seria ajudá-la a escutar como esse ideal foi constituído, que lugar ela ocupa no desejo do outro, e o que nela se sente ameaçado quando não corresponde. Muitas vezes, não corresponder desperta culpa, medo de abandono, sensação de desamor. Por isso é tão difícil.


Por que isso adoece?


A tentativa permanente de corresponder adoece porque exige um esforço contínuo de adaptação ao olhar do outro, muitas vezes às custas da própria singularidade. O sujeito passa a viver mais em função de manter uma imagem do que de sustentar uma experiência própria. Isso gera tensão crônica.

Além disso, o ideal costuma ser insaciável. Quando uma meta é atingida, outra aparece. Quando um reconhecimento vem, ele dura pouco. Quando tudo dá certo, surge o medo de perder. Em vez de produzir tranquilidade, o ideal absoluto alimenta vigilância. O sujeito não descansa porque está sempre em avaliação.

Do ponto de vista psicanalítico, isso também produz um empobrecimento da relação com o desejo. Não porque o desejo desapareça, mas porque ele fica recoberto por camadas de dever, desempenho e adequação. E o desejo recoberto não some; ele retorna de outras formas — irritação sem nome, apatia, sabotagens, sintomas, repetições, angústia.


Entre ideal e desejo: não se trata de escolher um e abandonar o outro


Seria simplista dizer que a solução é “jogar fora os ideais e seguir o desejo”. A vida humana não funciona assim. Precisamos de referências, compromissos, laços, responsabilidade. A questão não é viver sem ideal, mas não ser inteiramente governado por ele. E a questão não é “fazer tudo o que se quer”, mas construir uma relação mais viva com o próprio desejo, sem reduzi-lo ao dever de corresponder.

Em análise, isso pode começar por deslocamentos pequenos e profundos: perceber frases que se repetem (“eu tenho que”, “eu deveria”, “não posso falhar”); distinguir exigência herdada de escolha atual; reconhecer o custo de certas identificações; admitir ambivalências; experimentar limites sem vivê-los como colapso moral. É um trabalho de escuta e elaboração, não de autoaperfeiçoamento compulsivo.

A pergunta deixa de ser apenas “como ser melhor?” e pode se tornar: “melhor para quem?”, “a serviço de quê?”, “o que em mim fica de fora quando vivo só para corresponder?”. Essas perguntas não trazem respostas prontas, mas abrem espaço para algo precioso: uma vida menos organizada pelo terror da insuficiência e mais atravessada por uma responsabilidade singular sobre o próprio desejo.

Entre o ideal e o desejo, adoecemos quando só um lado pode falar. O trabalho clínico, muitas vezes, começa quando aquilo que era apenas cobrança pode finalmente ser interrogado — e quando aquilo que era apenas sintoma pode começar a ganhar palavra.

 
 
 

Comentários


Não é mais possível comentar esta publicação. Contate o proprietário do site para mais informações.
8380012.jpg
  • Instagram

© 2025 por Arthur Alexander Abrahão

bottom of page