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Depressão e ideal do eu

  • Foto do escritor: Arthur Alexander
    Arthur Alexander
  • há 2 dias
  • 2 min de leitura

Quando falamos em depressão, muita gente pensa apenas em tristeza, cansaço ou falta de vontade. Tudo isso pode aparecer, mas, do ponto de vista da psicanálise, especialmente em uma leitura inspirada em Lacan, há algo mais profundo em jogo: a relação da pessoa com a forma como ela acredita que deveria ser.

Em termos simples, podemos chamar isso de ideal do eu. É aquela imagem interna que funciona como medida: a pessoa que eu deveria ter me tornado, o jeito certo de viver, a forma correta de amar, trabalhar, cuidar, vencer, suportar. Esse ideal nem sempre é consciente. Às vezes ele vem da família, da escola, da religião, das redes sociais, do modo como a pessoa foi elogiada ou cobrada ao longo da vida. Aos poucos, esse ideal vai ganhando força e passa a funcionar como um juiz silencioso.

O problema começa quando esse ideal fica duro demais. Em vez de orientar, ele condena. Em vez de inspirar, ele compara. A pessoa passa a se olhar como se estivesse sempre em falta. Não basta o que ela faz. Não basta o que ela entrega. Não basta quem ela é. Surge então uma dor muito particular: não apenas a de sofrer, mas a de sentir que se fracassou diante de uma imagem de valor.

Na teoria lacaniana, o ser humano nunca se sente totalmente completo. Sempre existe uma falta, um desencontro, algo que não fecha por inteiro. Isso não é um defeito: faz parte da condição humana. O problema é quando a pessoa acredita que deveria eliminar essa falta, como se precisasse finalmente virar alguém perfeito, inteiro, sem falhas. Quando isso não acontece — e nunca acontece de forma total — pode surgir um sentimento de queda, inutilidade e esvaziamento.

Em muitos casos, a depressão aparece justamente aí: no ponto em que o sujeito não consegue mais sustentar a distância entre quem ele é e quem acha que deveria ser. É como se o mundo perdesse cor porque tudo passa a ser medido por essa régua impossível. A pessoa não sofre apenas pelo presente; sofre também pelo que imagina não ter sido, não ter alcançado, não ter conseguido oferecer ao outro.

A psicanálise pode ajudar porque ela não trabalha só para “tirar os sintomas”, mas para dar sentido ao sofrimento. Ela permite perguntar: de onde veio esse ideal? Para quem eu tento provar valor? Em nome de quê eu me cobro tanto? O que em mim ficou preso a essa exigência? Essas perguntas não produzem respostas mágicas, mas podem abrir um espaço novo.

Aos poucos, a pessoa pode começar a perceber que não precisa viver sob um tribunal interno o tempo todo. Pode reconhecer que há uma diferença entre desejar algo e se punir por não ser perfeito. Pode também descobrir que muito do que parecia “fracasso pessoal” estava ligado a exigências antigas, herdadas, muitas vezes cruéis.

Nessa perspectiva, a análise não promete uma vida sem dor, mas pode ajudar a transformar a relação da pessoa consigo mesma. Em vez de viver esmagada por um ideal impossível, ela pode começar a construir um modo de existir mais humano, mais respirável e mais verdadeiro.

 
 
 

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© 2025 por Arthur Alexander Abrahão

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