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Ideal do eu na psicanálise: uma leitura mais fluida

  • Foto do escritor: Arthur Alexander
    Arthur Alexander
  • há 31 minutos
  • 3 min de leitura

O ideal do eu (Ich-Ideal) pode ser entendido como a instância que orienta o eu por meio de um ponto de referência: como eu deveria ser para merecer amor, reconhecimento, pertencimento. Ele dá forma a afetos como vergonha, culpa e orgulho, e muitas vezes define a direção de vida do sujeito — o que ele persegue, o que ele evita, o que ele precisa provar.

Na clínica, é comum que esse tema apareça misturado com outra noção próxima: o eu ideal (Ideal-Ich). A diferença é sutil, mas esclarece muito. O eu ideal é a imagem idealizada de si: uma figura de completude, coerência e competência que seduz porque parece prometer paz (“se eu virar isso, finalmente…”). Já o ideal do eu funciona como a posição a partir da qual o sujeito se mede: um lugar de avaliação ligado ao olhar suposto do Outro (família, pares, instituições, cultura). O primeiro é mais imagético e comparativo; o segundo, mais normativo e estruturante.

A formação do ideal passa pelo mecanismo de identificação. Identificar-se não é apenas copiar alguém; é tomar traços do outro como coordenadas do próprio ser. Antes de a pessoa se pensar como um “eu”, ela já é olhada, nomeada e localizada por um discurso: adjetivos, expectativas e lugares (“o responsável”, “a forte”, “o brilhante”, “o que dá trabalho”). Em seguida, entram as identificações ligadas à imagem e à comparação — irmãos, colegas, figuras admiradas, modelos culturais — que alimentam o eixo do “ser como” ou “não ser como”. E, ao mesmo tempo, certos significantes ganham estatuto de comando: palavras que condensam valor e dignidade (“correto”, “produtivo”, “exemplar”, “digno”). No vocabulário lacaniano, essas palavras podem operar como S1, funcionando como selos que organizam a narrativa de si.

Nessa mesma direção, a noção de estádio do espelho em Lacan ajuda a compreender por que o ideal é tão potente. O eu se constitui a partir de uma forma totalizante que oferece unidade onde havia dispersão: uma imagem que promete consistência. Esse ganho tem seu preço: o eu passa a depender de uma ficção de coerência sustentada por formas valorizadas. Quando a vida contraria a forma — erro, perda, rejeição, limite, envelhecimento — podem emergir vergonha, agressividade, retraimento ou sintoma. O ideal, então, não é um detalhe: é uma engrenagem que amarra a experiência do sujeito à manutenção de uma forma “correta” de existir.

O Outro é decisivo aqui. O ideal se fortalece quando o sujeito supõe um Outro que avalia: alguém (ou um lugar simbólico) diante do qual é preciso não decepcionar. O Outro aparece tanto em demandas explícitas (“seja impecável”) quanto no reconhecimento (“agora sim”) e nas interdições (“isso é vergonhoso”). Em muitos casos, o ideal funciona como uma tentativa de converter o desejo em conformidade: em vez de “o que eu quero?”, a pergunta vira “o que eu preciso ser para não perder amor, lugar, pertencimento?”.

Vale separar o ideal do eu do supereu. O ideal do eu pode atuar como referência e até sustentar projetos. O supereu, por sua vez, costuma aparecer como imperativo: “você tem que…”, “ainda não é suficiente…”. Ele tem um aspecto paradoxal: quanto mais se obedece, mais ele cobra. Quando o ideal do eu fica capturado por essa lógica superegoica, surgem circuitos como perfeccionismo, culpa por descanso, procrastinação por medo de falhar, comparação compulsiva, sensação crônica de insuficiência.

Por que isso dói tanto? Porque o ideal frequentemente promete um fechamento: “se eu for X, não faltará nada”. Mas, do ponto de vista estrutural, a falta não é um acidente a ser eliminado; ela é condição do desejo. Quando o ideal tenta tamponar a falta, ele cria uma ilusão de completude e, ao mesmo tempo, uma ameaça permanente: qualquer falha reabre o buraco. Daí aquela experiência comum de “nunca chega”: conquistas reais podem acontecer e, ainda assim, não produzir apaziguamento.

A psicanálise não tem como objetivo abolir o eu, mas trabalhar um movimento de desidealização: reduzir a tirania do ideal, historicizar de onde ele veio, distinguir reconhecimento real de fantasia de julgamento, e ler o que o ideal protege (de que angústias) e o que ele permite evitar. Com o tempo, a vida pode se deslocar do eixo “provar valor” para o eixo “sustentar escolhas”. O horizonte não é viver sem ideal, e sim transformar o ideal do eu de tribunal em uma bússola menos totalizante — uma referência que não exige completude para autorizar a vida.

 
 
 

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© 2025 por Arthur Alexander Abrahão

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