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Muitas formas de sofrimento psíquico nascem em um ponto silencioso: a tentativa de corresponder. Corresponder ao que esperam de nós, ao que imaginamos que esperam, ao que aprendemos que seria “certo”, “admirável” ou “suficiente”. Às vezes isso aparece como perfeccionismo. Outras vezes, como ansiedade constante, culpa, sensação de fracasso, exaustão, dificuldade de descansar, procrastinação ou um vazio estranho mesmo quando tudo parece estar “indo bem”. A pessoa faz muito, entrega muito, sustenta muito — e ainda assim sente que está devendo.

A psicanálise, especialmente em diálogo com Freud e Lacan, oferece uma forma profunda de ler esse mal-estar. Em vez de tratá-lo apenas como falta de organização, baixa autoestima ou problema de desempenho, ela pergunta: a quem, exatamente, você está tentando corresponder? E mais: o que se perde de você nesse esforço?

Essa pergunta nos leva a uma tensão central da vida psíquica: a tensão entre o ideal e o desejo.


O ideal: necessário, mas exigente


Todos nós nos constituímos em relação a ideais. Desde cedo, recebemos marcas, elogios, críticas, expectativas e nomes. “Menino comportado”, “filha forte”, “o inteligente da casa”, “a que resolve tudo”, “não decepcione”, “você tem futuro”, “seja alguém na vida”. Essas frases podem parecer banais, mas muitas vezes deixam inscrições profundas. Elas ajudam a organizar a entrada da criança no mundo simbólico, no campo da linguagem e da convivência. Em algum grau, os ideais são necessários: eles orientam, sustentam pertencimento e oferecem referências.

O problema começa quando o ideal deixa de ser referência e passa a funcionar como tirano. Quando não é mais um horizonte, mas uma medida cruel e permanente. Quando o sujeito passa a viver sob um tribunal interno diante do qual está sempre em falta.

Na tradição psicanalítica, podemos pensar esse campo a partir do ideal do eu e do supereu. Sem entrar em excesso de tecnicismo, basta dizer que há instâncias psíquicas ligadas à imagem do que deveríamos ser e às exigências que nos comandam. Em muitos casos, a pessoa acredita estar “apenas querendo melhorar”, quando na verdade está submetida a uma lógica de cobrança que não conhece limite.

É comum ouvir frases como: “Eu sei que estou cansado, mas não consigo parar”; “Se eu descansar, sinto culpa”; “Se eu erro, parece que eu não valho nada”; “Mesmo quando elogiam, eu sinto que fiz pouco”. Essas falas mostram que não se trata apenas de metas externas. Há uma voz internalizada, uma medida íntima e severa, que transforma a vida em prova constante.


O desejo: não é capricho


Quando se fala em desejo, muita gente imagina algo próximo de vontade imediata ou impulso espontâneo. Na psicanálise, especialmente em Lacan, o desejo é mais complexo. Ele não é simples capricho, nem uma lista de preferências conscientes. O desejo se constitui na relação com o outro, com a linguagem, com aquilo que nos faltou e com as perguntas que nos atravessam: “o que querem de mim?”, “como ser amado?”, “qual é meu lugar?”.

Por isso, o desejo não aparece pronto e transparente. Muitas vezes, ele surge de forma torta, recortada, contraditória. Às vezes, só percebemos algo do desejo quando estamos muito longe dele — por exemplo, quando adoecemos tentando viver apenas para corresponder.

Adoecer, nesse contexto, não significa necessariamente uma doença orgânica (embora o corpo possa ser profundamente afetado). Pode significar entrar em sofrimento psíquico persistente: ansiedade, sintomas corporais sem explicação médica suficiente, crises de pânico, insônia, compulsões, irritabilidade, desânimo, sensação de vazio, paralisia diante de decisões, dificuldade de sustentar relações. Em muitos casos, esses sofrimentos aparecem como se fossem “sem motivo”, mas carregam uma lógica: eles se organizam justamente no ponto em que o sujeito se distancia demais de seu desejo para manter uma imagem ideal.


Tentar corresponder demais pode virar sintoma


Lacan ajuda a pensar que o sintoma não é apenas um defeito a ser eliminado, mas uma solução psíquica — uma solução precária, sofrida, mas ainda assim uma solução. Quando alguém adoece tentando corresponder, o sintoma pode estar fazendo um trabalho paradoxal: ao mesmo tempo em que causa sofrimento, ele também impõe um limite onde o sujeito não consegue colocar limite por palavra.

Pense em alguém que diz “sim” para tudo, nunca pede ajuda, precisa ser impecável e está sempre disponível. Em algum momento, o corpo colapsa, a ansiedade explode, a insônia aparece, a concentração falha. A pessoa se sente traída pelo próprio corpo, como se estivesse “fraca” ou “defeituosa”. Mas uma escuta psicanalítica pode perguntar: o que esse colapso interrompe? Que engrenagem ele força a parar?

Isso não significa romantizar o sofrimento. Significa reconhecer que há uma função inconsciente em jogo. O sintoma pode ser a única forma encontrada, naquele momento, para dizer “não” a uma exigência impossível. O problema é que ele diz isso cobrando caro demais.


Um exemplo fictício


Vamos imaginar uma personagem fictícia, Clara, 36 anos, médica. Ela é vista como competente, dedicada e confiável. No hospital, costuma assumir plantões extras e resolver problemas que não eram dela. Entre amigos e família, é “a pessoa que dá conta”. Clara procura análise após episódios de taquicardia e crises de choro no carro, antes de chegar ao trabalho. Ela diz: “Minha vida está boa. Eu não tenho motivo para isso. Acho que estou ficando fraca.”

Nas primeiras conversas, Clara fala muito de desempenho. Conta quantas horas trabalhou, quantas tarefas concluiu, quantas pessoas ajudou. Quase não fala de si, a não ser para se cobrar. Quando o analista pergunta o que ela gostaria, ela responde com estranhamento: “Gostaria? Não sei. Eu preciso fazer o que tem que ser feito.”

Aos poucos, aparecem cenas de sua história. Na infância, ela era a filha que “não dava trabalho”, especialmente porque a mãe enfrentava depressão e o pai passava longos períodos fora. Clara aprendeu cedo a perceber o humor dos outros, antecipar necessidades e evitar conflitos. Era elogiada quando era madura, útil, responsável. Quando chorava ou se irritava, ouvia: “Você é forte, não faz isso com a sua mãe.”

Sem perceber, Clara construiu sua identidade em torno de um ideal: ser aquela que sustenta. Esse ideal lhe deu valor, lugar, reconhecimento. Mas também cobrou um preço: ela foi perdendo contato com a própria experiência de limite, cansaço, desejo e ambivalência. Não sabia mais distinguir cuidado de sobrecarga, disponibilidade de apagamento de si.

As crises de taquicardia aparecem justamente quando a rotina se torna insustentável e ela segue tentando manter a mesma imagem. O sintoma surge como falha — mas também como interrupção. O corpo acelera, ela chora, precisa parar o carro. Algo se impõe onde Clara não consegue ainda dizer: “eu não posso”, “eu não quero isso”, “eu preciso de ajuda”, “eu não sou apenas essa função”.

Nessa leitura, o sofrimento de Clara não é “frescura”, nem falta de resiliência. Também não se reduz a estresse ocupacional, embora o contexto pese. Há uma lógica subjetiva: ela tenta corresponder a um ideal que organiza seu valor desde muito cedo, e o sintoma aparece quando essa correspondência cobra mais do que ela pode pagar.

O trabalho analítico, nesse caso, não seria simplesmente ensinar Clara a “gestão de tempo” (embora ajustes práticos possam ajudar). Seria ajudá-la a escutar como esse ideal foi constituído, que lugar ela ocupa no desejo do outro, e o que nela se sente ameaçado quando não corresponde. Muitas vezes, não corresponder desperta culpa, medo de abandono, sensação de desamor. Por isso é tão difícil.

Por que isso adoece?

A tentativa permanente de corresponder adoece porque exige um esforço contínuo de adaptação ao olhar do outro, muitas vezes às custas da própria singularidade. O sujeito passa a viver mais em função de manter uma imagem do que de sustentar uma experiência própria. Isso gera tensão crônica.

Além disso, o ideal costuma ser insaciável. Quando uma meta é atingida, outra aparece. Quando um reconhecimento vem, ele dura pouco. Quando tudo dá certo, surge o medo de perder. Em vez de produzir tranquilidade, o ideal absoluto alimenta vigilância. O sujeito não descansa porque está sempre em avaliação.

Do ponto de vista psicanalítico, isso também produz um empobrecimento da relação com o desejo. Não porque o desejo desapareça, mas porque ele fica recoberto por camadas de dever, desempenho e adequação. E o desejo recoberto não some; ele retorna de outras formas — irritação sem nome, apatia, sabotagens, sintomas, repetições, angústia.


Entre ideal e desejo: não se trata de escolher um e abandonar o outro


Seria simplista dizer que a solução é “jogar fora os ideais e seguir o desejo”. A vida humana não funciona assim. Precisamos de referências, compromissos, laços, responsabilidade. A questão não é viver sem ideal, mas não ser inteiramente governado por ele. E a questão não é “fazer tudo o que se quer”, mas construir uma relação mais viva com o próprio desejo, sem reduzi-lo ao dever de corresponder.

Em análise, isso pode começar por deslocamentos pequenos e profundos: perceber frases que se repetem (“eu tenho que”, “eu deveria”, “não posso falhar”); distinguir exigência herdada de escolha atual; reconhecer o custo de certas identificações; admitir ambivalências; experimentar limites sem vivê-los como colapso moral. É um trabalho de escuta e elaboração, não de autoaperfeiçoamento compulsivo.

A pergunta deixa de ser apenas “como ser melhor?” e pode se tornar: “melhor para quem?”, “a serviço de quê?”, “o que em mim fica de fora quando vivo só para corresponder?”. Essas perguntas não trazem respostas prontas, mas abrem espaço para algo precioso: uma vida menos organizada pelo terror da insuficiência e mais atravessada por uma responsabilidade singular sobre o próprio desejo.

Entre o ideal e o desejo, adoecemos quando só um lado pode falar. O trabalho clínico, muitas vezes, começa quando aquilo que era apenas cobrança pode finalmente ser interrogado — e quando aquilo que era apenas sintoma pode começar a ganhar palavra.

 
 
 
  • Foto do escritor: Arthur Alexander
    Arthur Alexander
  • 25 de fev.
  • 6 min de leitura

É nesse sentido que Freud descreve o sintoma como formação de compromisso, e que Lacan aprofunda essa ideia ao situá-lo na estrutura da linguagem e do desejo.

A palavra “compromisso”, aqui, não tem o sentido moral de “ser comprometido” nem o sentido cotidiano de “ter um compromisso marcado”. Em psicanálise, trata-se de uma composição instável entre forças em conflito. O sintoma nasce como uma espécie de arranjo: de um lado, algo insiste — um desejo, uma fantasia, uma exigência pulsional, uma marca inconsciente; de outro, há barreiras — recalque, ideal de eu, culpa, medo de perder amor, interdições simbólicas. O sintoma aparece, então, como um modo de expressão e, ao mesmo tempo, de disfarce. Ele diz e oculta. Satisfaz e faz sofrer. Protege e aprisiona.

Essa ambiguidade é central. Se o sintoma fosse apenas sofrimento puro, talvez fosse mais simples abandoná-lo. Mas ele costuma trazer, junto da dor, uma forma de organização psíquica, uma defesa, uma solução precária para um impasse. É por isso que certas repetições persistem mesmo quando a pessoa compreende racionalmente que lhe fazem mal. A pergunta clínica não é apenas “por que isso continua?”, mas “o que isso resolve, ainda que custe caro?”.


O sintoma não é um erro sem sentido


No senso comum, é comum tratar o sintoma como um erro de funcionamento: uma ansiedade “sem motivo”, uma compulsão “sem sentido”, uma repetição amorosa “irracional”, uma dor “inexplicável”. A psicanálise não nega o sofrimento real envolvido, mas propõe outra via de leitura: o sintoma tem uma lógica. Não uma lógica transparente para a consciência, mas uma lógica inconsciente.

Freud mostrou que sonhos, lapsos, atos falhos e sintomas pertencem a uma mesma família de formações do inconsciente. Todos eles implicam trabalho psíquico: deslocamento, condensação, substituição, retorno do recalcado. Lacan retoma esse campo e enfatiza que o sintoma pode ser lido como uma escrita singular, feita de significantes, de marcas de linguagem, de enunciados herdados, de equívocos que se repetem. O sintoma não é um “defeito” externo ao sujeito; ele participa da maneira como o sujeito se constituiu e encontrou um modo de se manter diante do desejo do Outro.

Isso muda profundamente a posição clínica. Em vez de perguntar “como calar isso rapidamente?”, passa-se a perguntar “o que isso está dizendo?”, “em que ponto da sua história isso se torna necessário?”, “que satisfação paradoxal existe aí?”. Essa mudança não é teórica apenas; ela tem efeitos concretos. A pessoa deixa de se tratar apenas como vítima de um mecanismo estranho e pode começar a se implicar naquilo que repete, sem cair em culpa moral.


Formação de compromisso: o que está em compromisso?


Quando Freud fala em formação de compromisso, ele está descrevendo uma solução intermediária entre tendências incompatíveis. Há algo que quer aparecer e algo que impede. O sintoma é o resultado dessa negociação inconsciente.

Podemos pensar em três polos que frequentemente participam dessa composição:

  1. O desejo inconsciente, que insiste mesmo quando não é reconhecido.

  2. O recalque e as defesas, que barram a entrada desse conteúdo na consciência.

  3. A exigência do eu e do ideal, que tentam manter uma imagem coerente de si.

O sintoma surge quando nenhum desses polos vence completamente. Se o desejo aparecesse de modo direto, talvez gerasse angústia insuportável, culpa ou ruptura de laços importantes. Se a defesa barrasse tudo de forma absoluta, a vida psíquica se tornaria rígida demais, e o retorno do recalcado encontraria outras brechas. O sintoma é, então, uma saída de compromisso: permite uma expressão deformada do que foi recalcado, ao mesmo tempo em que mantém o recalcamento em funcionamento.

Por isso ele é tão resistente. Mexer no sintoma não é só mexer no sofrimento; é mexer num ponto de equilíbrio (ainda que precário) de toda uma economia psíquica. Em muitos casos, quando um sintoma cai sem elaboração, outro aparece no lugar. Não porque a pessoa “goste de sofrer”, mas porque a função daquele arranjo continua necessária enquanto o conflito de fundo permanece sem simbolização.


Lacan: sintoma, linguagem e gozo


Lacan radicaliza essa leitura ao mostrar que o sintoma não deve ser pensado apenas como mensagem a decifrar, mas também como modo de gozo. Isso é um ponto importante e delicado. “Gozo”, em Lacan, não é simples prazer. Trata-se de uma satisfação que pode incluir sofrimento, excesso, repetição e até desprazer. Algo pode doer e ainda assim prender o sujeito, justamente porque ali há uma fixação libidinal, uma forma de satisfação inconsciente.

Nesse sentido, o sintoma é compromisso em dois níveis. Primeiro, entre desejo e defesa, como em Freud. Segundo, entre sentido e gozo: o sintoma pode carregar uma significação na história do sujeito, mas também uma insistência que não se reduz ao significado. Às vezes a pessoa compreende muito sobre si e, ainda assim, algo da repetição persiste. Isso não invalida a análise; mostra que o sintoma não é só “conteúdo escondido”, mas uma amarração entre corpo, linguagem e gozo.

Lacan também ajuda a pensar como o sintoma se enlaça ao discurso do Outro — às frases, expectativas, nomeações e ideais que marcaram a constituição do sujeito. Um sintoma pode funcionar como resposta a uma pergunta inconsciente: “o que esperam de mim?”, “como manter o amor do outro?”, “como não decepcionar?”, “como existir sem ser engolido por essa exigência?”. Muitas vezes, o sintoma é um modo de responder a isso sem formular a pergunta de forma explícita.


Exemplo fictício: o compromisso que custa caro


Vamos imaginar um caso fictício. Marcos, 41 anos, professor universitário, procura análise porque sofre de crises recorrentes de enxaqueca sempre que se aproxima o prazo de entrega de projetos importantes. Ele diz: “É impressionante. Quando estou quase finalizando algo grande, eu travo. Fico mal, nauseado, sem conseguir olhar para a tela. Depois me culpo por perder prazo.” Os exames médicos identificam predisposição a enxaqueca, mas a frequência e a coincidência com certas situações chamam atenção.

No início, Marcos descreve o problema como um obstáculo puramente físico. Aos poucos, em sua fala, aparece um padrão: ele adia a conclusão dos trabalhos e sofre intensamente quando precisa mostrar algo como “seu”. Conta que, na adolescência, o pai dizia que ele era “brilhante”, mas em tom que soava como cobrança. Ao mesmo tempo, qualquer imperfeição era ridicularizada: “Você é inteligente demais para entregar isso.” A mãe, por outro lado, buscava nele apoio emocional e costumava comentar que o filho era o “orgulho da casa”.

Marcos cresceu entre duas pressões: ser excepcional e não falhar. Com o tempo, construiu uma imagem de competência sólida, admirada pelos colegas. Mas, perto da entrega final — justamente quando seu trabalho se torna público e sujeito a julgamento — aparece a enxaqueca. O sintoma, lido como formação de compromisso, revela sua dupla face.

Por um lado, ele expressa algo do conflito: expor um trabalho próprio convoca o medo de crítica, de humilhação, de perder o lugar idealizado. Por outro, a crise oferece uma saída: ela suspende o ato de se expor. A enxaqueca funciona como limite corporal onde Marcos não consegue, por palavra, assumir um limite subjetivo (por exemplo, tolerar a imperfeição, pedir prazo, sustentar que um trabalho bom não precisa ser perfeito). O sintoma o faz sofrer, mas também o protege de um ponto de angústia.

Além disso, há uma satisfação inconsciente em jogo: ao adoecer, Marcos permanece preso à cena em que precisa provar valor e, simultaneamente, escapar dela. O sintoma mantém viva a relação com a exigência do Outro. Ele se queixa do sofrimento, mas continua capturado na mesma lógica: “preciso entregar algo impecável” e “não consigo entregar”. O compromisso sintomático sustenta a tensão.

No trabalho analítico, a questão não seria apenas “como eliminar a enxaqueca?”, mas “que lugar essa crise ocupa na sua economia psíquica?”, “de que exigência ela o protege?”, “o que se torna possível ou impossível quando você adoece?”. Ao localizar a função do sintoma, Marcos pode começar a construir outras saídas: suportar melhor a incompletude, separar crítica de aniquilação, reconhecer sua própria parcela de desejo no trabalho que produz. A redução do sintoma pode vir como efeito dessa reconfiguração, e não apenas como imposição de controle.


O compromisso pode ser transformado


Entender o sintoma como formação de compromisso não significa glorificar o sofrimento nem defender que a pessoa “fique com seu sintoma”. Significa reconhecer que há uma inteligência inconsciente em jogo, uma solução que teve função em algum momento, ainda que hoje se torne custosa demais. Essa leitura evita tanto a culpabilização (“você faz isso porque quer”) quanto a simplificação (“isso não significa nada”).

A psicanálise oferece um espaço para que esse compromisso sintomático seja escutado, nomeado e, aos poucos, transformado. Em vez de uma guerra cega contra o sintoma, trata-se de produzir condições para que o sujeito encontre outras formas de lidar com o conflito que ele estava sustentando. Em alguns casos, o sintoma desaparece; em outros, perde intensidade, rigidez ou centralidade; em outros ainda, muda de estatuto, deixando de comandar silenciosamente a vida do sujeito.

O ponto central é este: o sintoma é sofrimento, mas não só. Ele é também arranjo, mensagem, defesa, modo de gozo e resposta a um impasse. Chamá-lo de formação de compromisso é levar a sério sua complexidade. E é justamente essa seriedade que abre a possibilidade de mudança real, menos baseada em exigência e mais em elaboração.

 
 
 
  • Foto do escritor: Arthur Alexander
    Arthur Alexander
  • 25 de fev.
  • 6 min de leitura

Quando alguém diz “eu sei o que está acontecendo comigo, mas não consigo mudar”, geralmente há aí um ponto importante para a psicanálise. A pessoa percebe algo do seu sofrimento, reconhece repetições, enxerga até certas causas aparentes — e, ainda assim, volta a viver a mesma cena por dentro. É nesse território que os conceitos de repressão, recalque e sintoma ajudam a iluminar o que está em jogo.

No uso cotidiano, “repressão” costuma significar contenção, proibição, controle. Falamos de repressão social, repressão policial, repressão de desejos. Na linguagem psicanalítica, porém, especialmente a partir de Freud e relida por Lacan, convém distinguir níveis diferentes. Há uma dimensão externa, de proibição e norma, e há uma operação psíquica específica: o recalque. Essa diferença é decisiva, porque nem todo conflito vira recalque, e nem todo sofrimento vem apenas de uma proibição consciente.

Freud mostrou que certos conteúdos ligados ao desejo, à angústia e à história infantil não desaparecem quando são recusados pela consciência. Eles retornam de outros modos: sonhos, lapsos, atos falhos, inibições, sintomas. Lacan retoma esse campo e faz um deslocamento fundamental: o inconsciente não é um “depósito” de coisas enterradas, mas uma estrutura que funciona como linguagem. Isso muda a forma de entender o sintoma. O sintoma não é apenas um erro a ser corrigido, mas uma mensagem cifrada, uma solução singular que o sujeito encontrou para lidar com um impasse do desejo.


Repressão e recalque: uma diferença importante


Podemos chamar de repressão, em sentido amplo, a força de interdição que vem do laço social, da educação, das expectativas familiares, das exigências culturais. A criança aprende cedo que nem tudo pode ser dito, feito ou mostrado. Ela se depara com limites, regras, perdas. Essa dimensão é constitutiva da vida em sociedade. Não existe sujeito sem inscrição em um campo simbólico, sem linguagem, sem leis e sem algum tipo de renúncia.

O recalque, por sua vez, é uma operação psíquica mais precisa. Não se trata simplesmente de “segurar” um impulso por escolha. O recalque incide sobre representações ligadas ao desejo e à angústia que se tornam incompatíveis com a posição que o eu tenta sustentar. Em vez de serem elaboradas, essas representações são afastadas da consciência. Mas esse afastamento não elimina sua força. Ao contrário: o recalcado insiste e retorna de forma disfarçada.

Lacan enfatiza que o recalque está ligado à entrada do sujeito na linguagem. Ao falar, o sujeito nunca coincide plenamente com o que diz. Sempre há um resto, um furo, um desencontro entre experiência e palavra. O recalque não é só um “arquivo fechado”, mas um efeito dessa própria estrutura. Algo não se deixa simbolizar totalmente, e isso reaparece em forma de tropeço, repetição e sintoma.

Por isso, dizer a alguém “pare de pensar nisso” raramente resolve. O problema não é apenas pensamento consciente. Muitas vezes, o que retorna no sintoma é justamente aquilo que não pôde ser dito, nomeado ou reconhecido como parte da própria história. O sintoma fala onde o sujeito não consegue falar.


O sintoma como formação de compromisso


Na tradição freudiana, o sintoma pode ser entendido como uma formação de compromisso: ele expressa algo do desejo recalcado e, ao mesmo tempo, o encobre. Há satisfação e sofrimento juntos. Isso explica por que certos sintomas persistem mesmo quando trazem dor. Eles não são simples “defeitos” de funcionamento; cumprem uma função psíquica.

Lacan aprofunda essa leitura ao situar o sintoma na articulação entre significantes. O sujeito se constitui no campo do Outro — isto é, na linguagem, nas marcas recebidas, nas nomeações, nos enunciados familiares. Frases aparentemente banais (“você é muito sensível”, “homem não chora”, “você tem que dar conta”, “não decepcione sua mãe”) podem operar como marcas decisivas. Não porque determinem tudo mecanicamente, mas porque entram na trama simbólica com a qual o sujeito passa a se ler.

Quando uma tensão não encontra via de simbolização, o corpo, o comportamento ou a repetição amorosa podem carregar essa escrita. Um sintoma pode aparecer como crise de ansiedade, procrastinação crônica, ciúme desmedido, compulsões, dificuldade de concluir projetos, dores sem causa médica suficiente, ou padrões repetitivos nos vínculos. Em cada caso, importa menos encaixar a pessoa em um rótulo e mais escutar a lógica singular daquele sintoma.

A pergunta psicanalítica não é apenas “como eliminar isso?”, mas também: “o que isso está tentando resolver?”, “em que ponto da sua história isso se organiza?”, “que lugar esse sintoma ocupa na sua relação com o desejo e com o outro?”. Essa escuta desloca a culpa e abre espaço para responsabilização subjetiva — que é diferente de culpabilização.


Um exemplo fictício


Imagine uma personagem fictícia, Helena, 34 anos, advogada, reconhecida no trabalho pela competência. Ela procura análise dizendo que sofre de crises de falta de ar antes de apresentações importantes. Os exames médicos estão em dia; não há causa orgânica que explique totalmente a intensidade das crises. Helena diz: “É absurdo, eu domino o assunto, estudo tudo, mas na hora meu corpo trava. Tenho vergonha. Parece fraqueza.”

No início, ela descreve o sintoma como um inimigo externo. Quer “tirar isso” o mais rápido possível. À medida que fala, aparece um traço frequente: a necessidade de nunca errar. Ela conta que, na infância, era a filha “exemplo”, a que não dava trabalho. O pai elogiava seu desempenho escolar, mas se irritava duramente com qualquer falha. A mãe, por sua vez, repetia: “Você é minha força. Não posso desabar.” Helena aprendeu cedo a ocupar um lugar de sustentação do outro.

Nas sessões, pequenos lapsos chamam atenção. Ao falar de uma apresentação, ela diz: “Tenho medo de me expor… quer dizer, de decepcionar.” Em outro momento, relata uma cena em que esqueceu um documento e comenta, rindo de modo tenso: “Parecia que eu tinha cometido um crime.” O que vai se desenhando não é apenas medo de falar em público, mas uma lógica subjetiva em que aparecer com a própria palavra se mistura com risco de falha, culpa e perda de amor.

Aqui, a repressão aparece no plano das exigências internalizadas: seja forte, seja impecável, não caia. O recalque se mostra naquilo que Helena não consegue reconhecer de seu próprio desejo de não sustentar sempre esse lugar, de poder falhar, de poder ser cuidada, de poder inclusive recusar certas demandas. Esse desejo, incompatível com a imagem ideal que ela sustenta, não desaparece. Retorna no corpo, no aperto, na falta de ar, justamente quando ela precisa “dar conta” diante do olhar dos outros.

O sintoma, então, pode ser lido como uma solução paradoxal. Ao mesmo tempo em que a faz sofrer, ele também interrompe a máquina da exigência. A crise impõe um limite onde Helena não consegue colocar um limite por palavra. O corpo diz “não” onde o eu insiste em dizer “sim” para tudo. Isso não significa romantizar o sofrimento, mas compreender sua função.

Com o trabalho analítico, Helena começa a diferenciar competência de obrigação de perfeição. Passa a localizar de quem são certas vozes que a habitam, e quando as repete como se fossem verdade absoluta. Em vez de lutar apenas contra o sintoma como defeito, ela começa a escutar o que nele se articula de sua história, de seu lugar na família e de seu modo de buscar reconhecimento. O sintoma pode diminuir, se transformar ou perder rigidez à medida que algo do recalque encontra novas vias de simbolização.


O que Lacan acrescenta a essa leitura


Lacan nos ajuda a evitar uma visão simplista do sofrimento psíquico. Nem tudo se resolve por “força de vontade”, nem tudo se explica por trauma como causa linear, nem o sintoma é apenas inimigo a ser silenciado. O sintoma tem estrutura, história e função. Ele participa da economia do sujeito.

Ao dizer que o inconsciente é estruturado como uma linguagem, Lacan aponta que o trabalho analítico passa pela fala — mas não por qualquer fala. Trata-se de uma fala que pode surpreender o próprio sujeito, fazer emergir equívocos, repetições, significantes insistentes. Muitas vezes, é no detalhe de uma expressão, num tropeço, numa frase repetida, que aparece a via de acesso ao que estava recalcado.

Isso também esclarece por que conselhos bem-intencionados às vezes fracassam. A pessoa pode entender racionalmente o conselho e, ainda assim, repetir. Não por teimosia moral, mas porque há uma lógica inconsciente operando. A análise não oferece um manual de comportamento; ela cria condições para que o sujeito se implique no que repete e possa inventar outra relação com seu desejo.


Em termos simples


Repressão é, de modo geral, a força que proíbe, contém, organiza. Recalque é a operação inconsciente pela qual algo do desejo é afastado da consciência, mas retorna disfarçado. Sintoma é uma formação que expressa esse retorno e, ao mesmo tempo, tenta dar uma solução ao conflito. Em Lacan, essa dinâmica é lida pela via da linguagem, da história singular e da posição do sujeito diante do desejo do Outro.

Falar de sintomas, portanto, não é falar de fraqueza. É falar de modos de sobrevivência psíquica que, em algum momento, custam caro demais. A psicanálise não promete uma vida sem conflito, mas pode oferecer um espaço onde o sofrimento deixa de ser apenas repetição muda e se torna algo que pode ser lido, dito e transformado.

 
 
 
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© 2026 por Arthur Alexander Abrahão

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