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  • Foto do escritor: Arthur Alexander
    Arthur Alexander
  • 8 de mar.
  • 2 min de leitura

Quando falamos em depressão, muita gente pensa apenas em tristeza, cansaço ou falta de vontade. Tudo isso pode aparecer, mas, do ponto de vista da psicanálise, especialmente em uma leitura inspirada em Lacan, há algo mais profundo em jogo: a relação da pessoa com a forma como ela acredita que deveria ser.

Em termos simples, podemos chamar isso de ideal do eu. É aquela imagem interna que funciona como medida: a pessoa que eu deveria ter me tornado, o jeito certo de viver, a forma correta de amar, trabalhar, cuidar, vencer, suportar. Esse ideal nem sempre é consciente. Às vezes ele vem da família, da escola, da religião, das redes sociais, do modo como a pessoa foi elogiada ou cobrada ao longo da vida. Aos poucos, esse ideal vai ganhando força e passa a funcionar como um juiz silencioso.

O problema começa quando esse ideal fica duro demais. Em vez de orientar, ele condena. Em vez de inspirar, ele compara. A pessoa passa a se olhar como se estivesse sempre em falta. Não basta o que ela faz. Não basta o que ela entrega. Não basta quem ela é. Surge então uma dor muito particular: não apenas a de sofrer, mas a de sentir que se fracassou diante de uma imagem de valor.

Na teoria lacaniana, o ser humano nunca se sente totalmente completo. Sempre existe uma falta, um desencontro, algo que não fecha por inteiro. Isso não é um defeito: faz parte da condição humana. O problema é quando a pessoa acredita que deveria eliminar essa falta, como se precisasse finalmente virar alguém perfeito, inteiro, sem falhas. Quando isso não acontece — e nunca acontece de forma total — pode surgir um sentimento de queda, inutilidade e esvaziamento.

Em muitos casos, a depressão aparece justamente aí: no ponto em que o sujeito não consegue mais sustentar a distância entre quem ele é e quem acha que deveria ser. É como se o mundo perdesse cor porque tudo passa a ser medido por essa régua impossível. A pessoa não sofre apenas pelo presente; sofre também pelo que imagina não ter sido, não ter alcançado, não ter conseguido oferecer ao outro.

A psicanálise pode ajudar porque ela não trabalha só para “tirar os sintomas”, mas para dar sentido ao sofrimento. Ela permite perguntar: de onde veio esse ideal? Para quem eu tento provar valor? Em nome de quê eu me cobro tanto? O que em mim ficou preso a essa exigência? Essas perguntas não produzem respostas mágicas, mas podem abrir um espaço novo.

Aos poucos, a pessoa pode começar a perceber que não precisa viver sob um tribunal interno o tempo todo. Pode reconhecer que há uma diferença entre desejar algo e se punir por não ser perfeito. Pode também descobrir que muito do que parecia “fracasso pessoal” estava ligado a exigências antigas, herdadas, muitas vezes cruéis.

Nessa perspectiva, a análise não promete uma vida sem dor, mas pode ajudar a transformar a relação da pessoa consigo mesma. Em vez de viver esmagada por um ideal impossível, ela pode começar a construir um modo de existir mais humano, mais respirável e mais verdadeiro.

 
 
 
  • Foto do escritor: Arthur Alexander
    Arthur Alexander
  • 1 de mar.
  • 5 min de leitura

Há algo de profundamente lacaniano na cena cotidiana em que um sujeito “morde” uma promessa: uma frase que parece certeira, uma imagem que captura, um gesto que acena com sentido. Podemos chamar isso de isca. A isca não é apenas um truque psicológico; ela é um modo de funcionamento do significante quando toca o desejo. Em Lacan, o desejo não se move por necessidades plenamente nomeáveis, mas por um resto, por uma falta estruturante: algo que escapa e, justamente por escapar, causa a busca. A isca é aquilo que se oferece como se pudesse preencher essa falta — não porque realmente preencha, mas porque faz funcionar a máquina do desejo.

Para entender a isca, é útil lembrar do S1, o significante-mestre. O S1 é aquele significante que “comanda” e organiza um campo de sentido, mesmo sem explicar nada por si só. Palavras como “sucesso”, “liberdade”, “autenticidade”, “merecimento”, “respeito”, “família”, “fé”, “excelência” podem operar como S1 quando se tornam eixos de identificação e avaliação. O S1 tem uma força própria: ele não precisa ser demonstrado; ele se impõe, “cola” e dá a impressão de que algo ficou claro. É por isso que ele é tão eficaz como isca: ele oferece um ponto de ancoragem, um lugar onde o sujeito pode dizer “é isso”, e com esse “é isso” construir uma narrativa.

Mas o S1 sozinho é enigmático. Ele é um comando sem manual. Para produzir sentido, ele precisa se articular a uma bateria de outros significantes, o S2: explicações, justificativas, histórias, teorias, diagnósticos, conselhos, protocolos. Aí aparece o enigma. O enigma não é simplesmente “não saber”; é uma forma específica de não saber: um não saber que convoca. Quando o sujeito encontra um S1 que o toca, ele fica diante de uma pergunta implícita: “o que isso quer dizer sobre mim?”, “o que devo fazer com isso?”, “o que o Outro quer de mim?”. O enigma é o intervalo entre o significante que manda e o sentido que ainda não se fechou.

É nesse intervalo que surge o engodo. Engodo, aqui, não significa apenas mentira consciente; é a estrutura do semblante: aquilo que se apresenta como substância, mas é uma montagem significante-imaginária que pretende dar consistência ao que, por natureza, é faltante. O engodo é a promessa de que o enigma pode ser resolvido por uma fórmula, por um objeto, por um “passo a passo”, por uma identidade pronta. Ele opera como uma sutura: tenta fechar a abertura do desejo com uma resposta totalizante. Por isso, o engodo tem um parentesco íntimo com a fantasia: ele oferece uma cena em que o sujeito acredita que encontrará, enfim, a chave que faltava.

Agora, por que tudo isso só faz sentido se colocarmos o Outro na cena? Porque, em Lacan, o Outro não é apenas “a outra pessoa”; é o lugar da linguagem, o tesouro dos significantes, o campo onde o sujeito supõe que existe um saber sobre ele. O sujeito se constitui ao ser falado pelo Outro: nomeado, situado, convocado, aprovado, corrigido. E é do Outro que parece vir a medida do valor. Assim, o desejo do sujeito é sempre atravessado pela pergunta sobre o desejo do Outro: “Che vuoi?” — “o que você quer de mim?”. O enigma, muitas vezes, é justamente essa pergunta.

A isca funciona porque promete uma resposta ao enigma do Outro. Quando um S1 me captura, eu sinto que ele pode me dar um lugar: “se eu for isso, serei visto”; “se eu alcançar isso, serei reconhecido”; “se eu entender isso, serei amado”. O engodo acontece quando tomo o S1 como se ele fosse a verdade do meu ser, e não um significante que me atravessa. Aí o sujeito se identifica ao significante como se ele fosse um destino: “sou o competente”, “sou o forte”, “sou o fracassado”, “sou o que não pode falhar”. É assim que o S1 vira etiqueta e tribunal.

Na clínica, isso aparece na transferência. O analisante supõe que o analista sabe algo sobre o seu enigma — e esse suposto saber é um efeito do Outro. Não é um erro; é o motor do trabalho. O analista não responde com um novo S1 que fechasse tudo; ele sustenta a abertura para que o sujeito possa localizar como foi fisgado: por quais palavras, por quais promessas, por quais ideais, por quais cenas. A interpretação, quando acontece, muitas vezes toca o ponto em que o S1 operou como isca: ela desmonta a evidência e recoloca a pergunta.

Podemos pensar o engodo também pelo lado do objeto a: aquilo que causa o desejo, não como um objeto real que se possui, mas como um resto que se contorna. A isca costuma “vestir” o objeto a com uma roupa convincente: um corpo, um status, uma conquista, um amor, um reconhecimento. O sujeito acredita que, ao obter aquilo, cessará a falta. E, no entanto, quando obtém, a falta reaparece em outra forma. Não porque “nada presta”, mas porque a falta é estrutural. O engodo é a tentativa de negar isso.

Um exemplo simples: alguém vive sob o S1 “excelência”. Esse significante organiza o ideal, a autoestima, a vergonha. Ele funciona como isca porque promete um lugar no Outro: “se eu for excelente, não serei descartado”. O enigma aparece como ansiedade: “o que exatamente é ser excelente?”, “quanto é suficiente?”. O engodo se instala quando o sujeito acredita que existe um padrão absoluto capaz de pacificar a falta — e passa a viver num regime superegoico de cobrança: qualquer falha vira ameaça de queda do lugar. O Outro, então, é experimentado como tribunal.

Outro exemplo contemporâneo: redes sociais oferecem S1 em série — “autêntico”, “de alta performance”, “livre”, “merecedor”. Eles iscam porque se apresentam como chaves de identidade. O enigma é produzido pela comparação e pelo olhar: “como ser isso de verdade?”. O engodo é a promessa de que existe uma versão final de si — completa, coerente, sem resto — que bastaria alcançar. O sujeito trabalha para ser visto, mas é visto por um Outro que nunca se satisfaz, porque o próprio sujeito o supõe ilimitado.

O que Lacan nos permite formular é que a saída não está em “não ter iscas” ou “não ter S1” — isso seria impossível; vivemos na linguagem. A questão é outra: de que maneira o sujeito se deixa comandar pelo S1, e como ele se posiciona frente ao enigma do Outro. Quando o S1 deixa de ser uma sentença e passa a ser lido como significante — isto é, como algo que tem história, que foi herdado, que foi imposto, que foi escolhido parcialmente — o engodo perde força. A falta deixa de ser tratada como defeito pessoal e passa a ser reconhecida como condição do desejo.

Nesse ponto, a clínica não “apaga” o Outro, mas relativiza seu estatuto de juiz. O sujeito pode, pouco a pouco, deslocar-se do eixo “ser o que o Outro quer” para o eixo “sustentar o que eu escolho, com as consequências”. O enigma não some; ele muda de lugar. Em vez de um buraco que precisa ser tapado, ele pode tornar-se uma pergunta que orienta. E a isca, quando aparece, deixa de ser fatalidade: vira material de leitura.

Em suma: a isca é o modo como um significante seduz o desejo; o S1 é a palavra-eixo que comanda e organiza; o enigma é a abertura que convoca sentido e posicionamento; o engodo é a sutura fantasmática que promete completar o incompleto; e o Outro é o lugar de onde o sujeito se supõe visto, falado e julgado. Ler essa trama é, muitas vezes, o início de uma liberdade possível: não a liberdade de “não faltar nada”, mas a liberdade de não ser governado pelo engodo de que um dia a falta será abolida.

 
 
 


Muitas formas de sofrimento psíquico nascem em um ponto silencioso: a tentativa de corresponder. Corresponder ao que esperam de nós, ao que imaginamos que esperam, ao que aprendemos que seria “certo”, “admirável” ou “suficiente”. Às vezes isso aparece como perfeccionismo. Outras vezes, como ansiedade constante, culpa, sensação de fracasso, exaustão, dificuldade de descansar, procrastinação ou um vazio estranho mesmo quando tudo parece estar “indo bem”. A pessoa faz muito, entrega muito, sustenta muito — e ainda assim sente que está devendo.

A psicanálise, especialmente em diálogo com Freud e Lacan, oferece uma forma profunda de ler esse mal-estar. Em vez de tratá-lo apenas como falta de organização, baixa autoestima ou problema de desempenho, ela pergunta: a quem, exatamente, você está tentando corresponder? E mais: o que se perde de você nesse esforço?

Essa pergunta nos leva a uma tensão central da vida psíquica: a tensão entre o ideal e o desejo.


O ideal: necessário, mas exigente


Todos nós nos constituímos em relação a ideais. Desde cedo, recebemos marcas, elogios, críticas, expectativas e nomes. “Menino comportado”, “filha forte”, “o inteligente da casa”, “a que resolve tudo”, “não decepcione”, “você tem futuro”, “seja alguém na vida”. Essas frases podem parecer banais, mas muitas vezes deixam inscrições profundas. Elas ajudam a organizar a entrada da criança no mundo simbólico, no campo da linguagem e da convivência. Em algum grau, os ideais são necessários: eles orientam, sustentam pertencimento e oferecem referências.

O problema começa quando o ideal deixa de ser referência e passa a funcionar como tirano. Quando não é mais um horizonte, mas uma medida cruel e permanente. Quando o sujeito passa a viver sob um tribunal interno diante do qual está sempre em falta.

Na tradição psicanalítica, podemos pensar esse campo a partir do ideal do eu e do supereu. Sem entrar em excesso de tecnicismo, basta dizer que há instâncias psíquicas ligadas à imagem do que deveríamos ser e às exigências que nos comandam. Em muitos casos, a pessoa acredita estar “apenas querendo melhorar”, quando na verdade está submetida a uma lógica de cobrança que não conhece limite.

É comum ouvir frases como: “Eu sei que estou cansado, mas não consigo parar”; “Se eu descansar, sinto culpa”; “Se eu erro, parece que eu não valho nada”; “Mesmo quando elogiam, eu sinto que fiz pouco”. Essas falas mostram que não se trata apenas de metas externas. Há uma voz internalizada, uma medida íntima e severa, que transforma a vida em prova constante.


O desejo: não é capricho


Quando se fala em desejo, muita gente imagina algo próximo de vontade imediata ou impulso espontâneo. Na psicanálise, especialmente em Lacan, o desejo é mais complexo. Ele não é simples capricho, nem uma lista de preferências conscientes. O desejo se constitui na relação com o outro, com a linguagem, com aquilo que nos faltou e com as perguntas que nos atravessam: “o que querem de mim?”, “como ser amado?”, “qual é meu lugar?”.

Por isso, o desejo não aparece pronto e transparente. Muitas vezes, ele surge de forma torta, recortada, contraditória. Às vezes, só percebemos algo do desejo quando estamos muito longe dele — por exemplo, quando adoecemos tentando viver apenas para corresponder.

Adoecer, nesse contexto, não significa necessariamente uma doença orgânica (embora o corpo possa ser profundamente afetado). Pode significar entrar em sofrimento psíquico persistente: ansiedade, sintomas corporais sem explicação médica suficiente, crises de pânico, insônia, compulsões, irritabilidade, desânimo, sensação de vazio, paralisia diante de decisões, dificuldade de sustentar relações. Em muitos casos, esses sofrimentos aparecem como se fossem “sem motivo”, mas carregam uma lógica: eles se organizam justamente no ponto em que o sujeito se distancia demais de seu desejo para manter uma imagem ideal.


Tentar corresponder demais pode virar sintoma


Lacan ajuda a pensar que o sintoma não é apenas um defeito a ser eliminado, mas uma solução psíquica — uma solução precária, sofrida, mas ainda assim uma solução. Quando alguém adoece tentando corresponder, o sintoma pode estar fazendo um trabalho paradoxal: ao mesmo tempo em que causa sofrimento, ele também impõe um limite onde o sujeito não consegue colocar limite por palavra.

Pense em alguém que diz “sim” para tudo, nunca pede ajuda, precisa ser impecável e está sempre disponível. Em algum momento, o corpo colapsa, a ansiedade explode, a insônia aparece, a concentração falha. A pessoa se sente traída pelo próprio corpo, como se estivesse “fraca” ou “defeituosa”. Mas uma escuta psicanalítica pode perguntar: o que esse colapso interrompe? Que engrenagem ele força a parar?

Isso não significa romantizar o sofrimento. Significa reconhecer que há uma função inconsciente em jogo. O sintoma pode ser a única forma encontrada, naquele momento, para dizer “não” a uma exigência impossível. O problema é que ele diz isso cobrando caro demais.


Um exemplo fictício


Vamos imaginar uma personagem fictícia, Clara, 36 anos, médica. Ela é vista como competente, dedicada e confiável. No hospital, costuma assumir plantões extras e resolver problemas que não eram dela. Entre amigos e família, é “a pessoa que dá conta”. Clara procura análise após episódios de taquicardia e crises de choro no carro, antes de chegar ao trabalho. Ela diz: “Minha vida está boa. Eu não tenho motivo para isso. Acho que estou ficando fraca.”

Nas primeiras conversas, Clara fala muito de desempenho. Conta quantas horas trabalhou, quantas tarefas concluiu, quantas pessoas ajudou. Quase não fala de si, a não ser para se cobrar. Quando o analista pergunta o que ela gostaria, ela responde com estranhamento: “Gostaria? Não sei. Eu preciso fazer o que tem que ser feito.”

Aos poucos, aparecem cenas de sua história. Na infância, ela era a filha que “não dava trabalho”, especialmente porque a mãe enfrentava depressão e o pai passava longos períodos fora. Clara aprendeu cedo a perceber o humor dos outros, antecipar necessidades e evitar conflitos. Era elogiada quando era madura, útil, responsável. Quando chorava ou se irritava, ouvia: “Você é forte, não faz isso com a sua mãe.”

Sem perceber, Clara construiu sua identidade em torno de um ideal: ser aquela que sustenta. Esse ideal lhe deu valor, lugar, reconhecimento. Mas também cobrou um preço: ela foi perdendo contato com a própria experiência de limite, cansaço, desejo e ambivalência. Não sabia mais distinguir cuidado de sobrecarga, disponibilidade de apagamento de si.

As crises de taquicardia aparecem justamente quando a rotina se torna insustentável e ela segue tentando manter a mesma imagem. O sintoma surge como falha — mas também como interrupção. O corpo acelera, ela chora, precisa parar o carro. Algo se impõe onde Clara não consegue ainda dizer: “eu não posso”, “eu não quero isso”, “eu preciso de ajuda”, “eu não sou apenas essa função”.

Nessa leitura, o sofrimento de Clara não é “frescura”, nem falta de resiliência. Também não se reduz a estresse ocupacional, embora o contexto pese. Há uma lógica subjetiva: ela tenta corresponder a um ideal que organiza seu valor desde muito cedo, e o sintoma aparece quando essa correspondência cobra mais do que ela pode pagar.

O trabalho analítico, nesse caso, não seria simplesmente ensinar Clara a “gestão de tempo” (embora ajustes práticos possam ajudar). Seria ajudá-la a escutar como esse ideal foi constituído, que lugar ela ocupa no desejo do outro, e o que nela se sente ameaçado quando não corresponde. Muitas vezes, não corresponder desperta culpa, medo de abandono, sensação de desamor. Por isso é tão difícil.


Por que isso adoece?


A tentativa permanente de corresponder adoece porque exige um esforço contínuo de adaptação ao olhar do outro, muitas vezes às custas da própria singularidade. O sujeito passa a viver mais em função de manter uma imagem do que de sustentar uma experiência própria. Isso gera tensão crônica.

Além disso, o ideal costuma ser insaciável. Quando uma meta é atingida, outra aparece. Quando um reconhecimento vem, ele dura pouco. Quando tudo dá certo, surge o medo de perder. Em vez de produzir tranquilidade, o ideal absoluto alimenta vigilância. O sujeito não descansa porque está sempre em avaliação.

Do ponto de vista psicanalítico, isso também produz um empobrecimento da relação com o desejo. Não porque o desejo desapareça, mas porque ele fica recoberto por camadas de dever, desempenho e adequação. E o desejo recoberto não some; ele retorna de outras formas — irritação sem nome, apatia, sabotagens, sintomas, repetições, angústia.


Entre ideal e desejo: não se trata de escolher um e abandonar o outro


Seria simplista dizer que a solução é “jogar fora os ideais e seguir o desejo”. A vida humana não funciona assim. Precisamos de referências, compromissos, laços, responsabilidade. A questão não é viver sem ideal, mas não ser inteiramente governado por ele. E a questão não é “fazer tudo o que se quer”, mas construir uma relação mais viva com o próprio desejo, sem reduzi-lo ao dever de corresponder.

Em análise, isso pode começar por deslocamentos pequenos e profundos: perceber frases que se repetem (“eu tenho que”, “eu deveria”, “não posso falhar”); distinguir exigência herdada de escolha atual; reconhecer o custo de certas identificações; admitir ambivalências; experimentar limites sem vivê-los como colapso moral. É um trabalho de escuta e elaboração, não de autoaperfeiçoamento compulsivo.

A pergunta deixa de ser apenas “como ser melhor?” e pode se tornar: “melhor para quem?”, “a serviço de quê?”, “o que em mim fica de fora quando vivo só para corresponder?”. Essas perguntas não trazem respostas prontas, mas abrem espaço para algo precioso: uma vida menos organizada pelo terror da insuficiência e mais atravessada por uma responsabilidade singular sobre o próprio desejo.

Entre o ideal e o desejo, adoecemos quando só um lado pode falar. O trabalho clínico, muitas vezes, começa quando aquilo que era apenas cobrança pode finalmente ser interrogado — e quando aquilo que era apenas sintoma pode começar a ganhar palavra.

 
 
 
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© 2026 por Arthur Alexander Abrahão

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